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Pássaros de Verão

(Título original, PAÍS/PAÍS/PAÍS/PAÍS, ano)
Gênero
Direção: Cristina Gallego, Ciro Guerra
Elenco: Carmiña Martínez, José Acosta, Natalia Reyes, Jhon Narváez, Greider Meza, José Vicente, Juan Bautista Martínez
Roteiro: Maria Camila Arias, Jacques Toulemonde Vidal
Duração: 125 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Habitantes da Guajira, os Wayuu são um povo conhecido por sua resistência à dominação espanhola. Ligados à tradição, são hoje cerca de 300 mil pessoas divididas em mais de dez clãs e se diferenciam de todas as outras etnias: chamam indígenas de kusinas; descendentes de espanhóis de alijunas (ou “aquele que causa danos”), e os estrangeiros de gringos. Pássaros de Verão volta aos anos 1960 e 1970 e expõe as tradições Wayuu não com o intuito de exploração etnográfica, mas para demonstrar uma nova história sobre o desenvolvimento do narcotráfico na Colômbia, antes da era Escobar.

É interessante ver uma etnia que passou anos sendo alijada de qualquer história – seja ela positiva ou negativa – aparecendo como protagonista. Há um contrassenso quando se pensa na história como potencial reforço de estereótipos, mas, ao mesmo tempo, corroborar a ausência, compactuando com o apagamento sistêmico é ainda mais nocivo. Essa dubiedade da representação não deixa de existir em nenhum momento do filme, mas a experiência é extremamente interessante, ainda assim.

O diretor Ciro Guerra, ao lado de Cristina Gallego, volta à temática da colonização, como em O Abraço da Serpente. A família de Pássaros de Verão vem de um povo que sobreviveu à invasão e à colonização, mas sucumbiu ao capitalismo. De saída, o modo como se dá a relação com o dinheiro, em contato com gringos que, pregando o perigo do comunismo, buscam um fornecedor de maconha, e o fato de tudo estar ligado ao cumprimento de uma tradição ancestral têm um grande potencial.

O roteiro de Maria Camila Arias e Jacques Toulemonde Vidal busca a forma tradicional de cantos Wayuu, os jayeechi. A história de Rapayet, criado por alijunas depois da morte de toda a sua família, e seu retorno em busca da tradição perdida, é contada em cinco cantos que funcionam como capítulos. O retorno às origens é permeado de sequências de ação comuns em filme sobre a máfia e, principalmente, o tráfico de drogas.

Os personagens principais são bem trabalhados e, mesmo que haja uma constante oposição entre suas escolhas e as tradições recuperadas e perdidas, as interações são naturais e não forçadas. Com destaque para o próprio Rapayet, assim como Úrsula como a matriarca e Peregrino como aquele que tem o dom da palavra, há um interesse muito genuíno naquilo que representam em toda a trama.

Como era de se esperar, há muito impacto nas agora coloridas imagens. A câmera de David Gallego sabe como se aproveitar de toda a luz e das muitas paisagens da Guajira, captar a mimetização da fauna na rancheria e registrar características próprias do povo Wayuu. O modo como apresenta a Majayura, ritual de passagem das jovens, em uma dança cheia de movimentos que se confundem com o dos personagens é impressionante.

A transformação pela qual passa a família, com o abandono de locais e a criação de novos e suntuosos ambientes, ou o exagero na demonstração de poder por meio de roupas, objetos, cabelos e maquiagens traduz o afastamento da natureza e da comunhão entre o povo. A ruptura chega aos hábitos e não há como recuperar tudo aquilo que foi perdido. Guerra e Gallego possibilitam a transição de maneira paulatina, mas sem nunca deixar de destacá-la. Uma imagem simples, como o flamingo andando pela nova casa, por exemplo, tem a sua força.

Pássaros de Verão olha para um local e um povo normalmente pouco procurados e não faz uma constatação generalista sobre uma etnia, mas a inclui no processo histórico de um lugar, de maneira individualizada. O filme traz ainda uma história elaborada onde tradição e ambição se misturam, mostrando que a colonização tem outros métodos e pode causar a sua devastação de muitas maneiras diferentes.

Um Grande Momento:
A Majayura.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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