Crítica | Festival

Passou

(Passou, BRA, 2020)

  • Gênero: Ficção
  • Direção: Felipe André Silva
  • Roteiro: Felipe André Silva
  • Elenco: Fábio Alves, Carlos Eduardo Ferraz, Peu Queiroga, Pedro Toscano
  • Duração: 70 minutos
  • Nota:

O jovem cineasta Felipe André Silva tem feito um recorte de gênero no cinema brasileiro que interessa muito a cena atual, simplesmente por não conter muitos exemplos de iniciativas parecidas: analisar pictoricamente o recorte LGBTQI+ sem perder o foco da palavra falada, dita, escrita ou narrada. Por meio de uma proposta que abre espaço para o naturalismo em contrapartida ao que é explicitamente encenado, Felipe continua uma investigação pessoal que vem desenvolvendo a respeito do debruçamento sobre o privado tornado público, como quando um sentimento deixa de pertencer somente a você.

O autor tem interesse pessoal a essa revisão emocional que já estava em cena no seu filme anterior, o arrebatador curta cinema contemporâneo, onde suas próprias experiências tomam conta da tela – literalmente – em imagem e som, ao ressignificar um dispositivo que vem sendo muito utilizado atualmente no nosso cinema, a análise pictórica. Passou é, sob muitos aspectos, um avanço nessa discussão e uma aventura cinematográfica que abarca a experiência audiovisual a partir de camadas que adicionam novas perspectivas sobre si mesma a cada novo bloco de eventos.

Passou, de Felipe André Silva

Existe a imagem estática, a palavra escrita através de cartelas, a palavra falada em tom de declamação, os diálogos sem a visão do interlocutor, a imagem enfim em movimento pelo espaço cênico, a música como objeto de estudo desse mesmo espaço e das ações dos seus personagens e, por fim, o diálogo materializado, com locutor e interlocutor. Para além do olhar sobre a natureza das relações queer em leitura coloquial, Passou claramente desenvolve a origem do cinema moderno na construção de seus blocos, o que já o eleva enquanto realização.

Paralelamente ao cinema que desenvolvem Gustavo Vinagre (Nova Dubai), Ulisses Arthur (Ilhas de Calor), ambos de forte reverberação visual e oral, Felipe mergulha suas ferramentas nesse novo filme a uma proposta que intercale sua posição particular enquanto artista na vanguarda da discussão de gênero a ambições estéticas que contemplem também um lugar de observação sobre a criação dos dogmas cinematográficos como o conhecemos, para em seguida subvertê-los e reposicioná-los para gerar uma discussão moderna a respeito das duas funcionalidades.

Na estrutura de quatrilho, Passou se desenvolve; uma ciranda de amores ajuda a desenvolver sua narrativa episódica que avança desordenadamente pelo tempo, embaralhando, confundindo e dando a suas sequências significados diferentes a cada novo acesso a Pedro, a Fábio, a Carlos… e ao sequenciamento de amores que eles criam entre si; no melhor estilo Chico Buarque, Fábio amava Paulo que amava Carlos… e o filme se entabula de dar voz a esses tempos de cada uns, e de pouco em pouco, compreendemos o círculo que os une.

Contando com o trabalho sempre impactante de Pedro Sotero (de Bacurau‘ e Aquarius) na fotografia, que ilumina muito além dos espaços cênicos e enquadra os personagens criando um relevo entre eles e os cenários, que parecem ter tanta vida quanto os atores, Felipe conta com um trio de atores que capta sua proposta e corresponde ao filme com dedicação exemplar, absolutamente imersos em suas versões fílmicas. Impossível não destacar, no entanto, a verdade de Pedro Toscano, que já tinha trabalhado com Felipe em Um Homem Sentado no Corredor, e aqui consegue uma impressionante conexão com o texto.

Felipe, com sua prosa acessível e seus atalhos elípticos que nos permite flagrar os instantâneos de cada um de seus homens, invade os universos não apenas de quem está debaixo de suas asas, como também do espectador que se identifica nos relatos devassados em seu filme, como na encontro visual pelo ônibus e na deficiência de assumir o que se sente, ou nos gestos frívolos, como acordar nos braços de quem se ama; um punhado de agridoce realidade a um segmento que raramente consegue se ver sem sofrer.

Um grande momento
“Um nome não é nada”

[4ª Ecrã]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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