Crítica | Festival

Meu Pretzel Mexicano

(My Mexican Bretzel, ESP, 2019)

  • Gênero: Experimental
  • Direção: Nuria Giménez
  • Roteiro: Nuria Giménez
  • Duração: 73 minutos
  • Nota:

Só dez por cento é mentira, o resto é imaginação

Manoel de Barros

Revisitar imagens, dar a elas novos significados. Com Meu Pretzel Mexicano, Núria Giménez faz uso da criatividade para construir uma história completamente nova. Diferentemente da nova onda de ressignificação de imagens, é sutil na elaboração do vínculo entre passado e presente, na fórmula de um ser definido pelo outro, na perpetuação de algo. Seu interesse é criar, fabular.

As imagens ora contrastam com as palavras, ora as confirmam. O espectador se perde no jogo, só sabendo do que se trata nos créditos finais do filme. Ao assumir as palavras do suposto diário de Vivian Barret e ilustrá-las com arquivos caseiros em 16 milímetros, banca a fantasia e a torna concreta. É tudo muito possível, muito palpável.

Meu Pretzel Mexicano

Boa parte disso transcende o visual. A escolha e disposição de sons destaca a condição de um dos personagens e, mais do que isso, pontua e cadencia a trama. São intromissões bem-vindas numa experiencia onde a imersão é completa. A intimidade com quem narra, em seu cotidiano e desejos, só cresce, assim como a torcida por uma reviravolta na história. Francesca com a mão na maçaneta em As Pontes de Madison.

É só aí que se enxerga algum traço de revisionismo, no alcançar da realidade das mulheres de décadas passadas. A situação do aprisionamento por determinações sociais, a felicidade frustrada. Barret repete situações e discursos marcados pelo período. Suas palavras parecem saídas dos folhetins de Nelson Rodrigues quando ele assinava como Suzana Flag, ou dos filmes de Douglas Sirk.

Meu Pretzel Mexicano

Essa posição da mulher é muito demarcada na literatura e no cinema da época. Melodrama na veia. Algumas frases de Barret, por exemplo, poderiam perfeitamente ter saído da boca de Laura Jesson, personagem de Celia Johnson no belo e por mim recém-assistido Desencanto, de David Lean. Eis ali a prisão e frustração da mulher bela, recatada e do lar e, ao mesmo tempo, a beleza do imaginário, sempre mais interessante do que a realidade e suas rachaduras na imagem. Eis aí, do jeito mais barthesiano, o próprio Meu Pretzel Mexicano.

Giménez sabe do quê e como deve falar. Por trás da sucessão de imagens, traz a potência de um discurso que ultrapassa o tempo. A técnica do roteiro, repleto desses artifícios da idealização romântica, soma-se à proximidade das imagens. Ao descartar a voz e apostar na narração escrita, o filme estabelece um novo vínculo com quem assiste ao filme, profundo. Com sua mentiras e invenções, Meu Pretzel Mexicano é consciente, ousado, e usa e abusa da imaginação, daquela que o cria e daqueles que nele mergulham.

Um grande momento
A tequila faria a mesma coisa. 

[4º Ecrã]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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