Crítica | Festival

Avesso Festa Baile

Ali pela década de 1980, um movimento veio para tentar trazer uma nova forma e abordagem ao que era produzido para a televisão. Vários videomakers, cheios de ideias disruptivas surgiam, com intervenções contrárias a todo universo perfeitinho que chegava à casa das pessoas. Um grande nome do período é o de Tadeu Jungle, um dos fundadores da TVDO, e criador de Avesso Festa Baile, vídeo que explora de maneira muito própria os bastidores do programa de auditório apresentado por Agnaldo Rayol e Branca Ribeiro.

Antes de começar a falar da obra, um pouquinho de história… a TVDO (TV Tudo) era formada por um grupo de estudantes da ECA, um aluno de cinema e outros três de televisão. A ideia está gravada no nome do coletivo. Segundo Jungle, um desses alunos uspianos, “Tudo podia ser um programa de televisão. O que acontecia era. O que não acontecia também era. TV. Para nós, não havia limite”¹. O grupo despertou a curiosidade e, em 1984, a TV Cultura encomendou a série Avesso, que mostraria aquilo que está por trás da TV. Aconteceu que a série ofendeu e nunca foi exibida, com exceção dos episódios Avesso Vê o Circo, à época, e Avesso Futebol, apenas em 2009.

15ª CineOP: Avesso Festa Baile

Avesso Festa Baile já chega quebrando tudo na estética, que apresenta elementos inusitados, inserções gráficas, muitos planos fechados, ruptura do campo cênico. Comandando a experimentação, Tadeu Jungle, com sua camiseta do Cruzeiro, ele contrasta de imediato com o desfile de longos e ternos do público que chega ao Clube Tietê para acompanhar o programa ao vivo e subverte a figura do apresentador de programas noturnos. O humor mordaz, ultra irônico, está no modo como o realizador se aproxima de seus entrevistados, expondo uma frustração disfarçada de elegância.

Com as palavras dos outros, na contradição do discurso, Jungle faz um retrato de uma época, o recorte de um pensamento antagônico a toda modernidade de sua criação artística. Ele expõe o que está por trás de todo o brilho e glamour do programa: entre os casais que dançam, várias pessoas estão há anos indo para aquele lugar, todas as quartas-feiras, sem nunca se levantar da cadeira; a importância dessa “imagem pessoal” para fora, com muita maquiagem e vestidos ainda fora do corpo para que não amassem; a intimidade no palco que dá lugar à frieza do discurso ensaiado. O diretor se embrenha no emaranhado de situações e consegue encontrar fluidez, trazendo o espectador para a realidade que ele vivencia.

15ª CineOP: Avesso Festa Baile

De certo modo, Avesso Festa Baile tem várias semelhanças com Abertura, programa de Glauber Rocha apresentado anos antes na TV Tupi. A estética dos planos, a postura e figurino despojados do entrevistador, o modo como se aproxima dos entrevistados. Jungle se inspira, mas vai mais longe. Passeando por corredores e camarins, encontra o inusitado, um saxofonista que toca enquanto Rayol toma banho, ou a comilança ao som da música mais famosa do quarteto Gengis Khan. Tudo é TV, isso é TV, tem que se mostrar. Ainda hoje não é possível precisar o quanto esse novo modo de ver o dispositivo e escancarar suas entranhas poderia ter mudado muito do que hoje está posto. Há um tom de ironia desmoralizante muito benéfico naquilo que se vê.

Avesso Festa Baile é uma das muitas incursões de Jungle na construção e afirmação do vídeo como estética, uma antecipação de tudo que está sendo visto hoje com a invasão dos aparelhos digitais e das câmeras que cabem nos bolsos da calça. Injustamente, não é uma origem conhecida, parte pelo preconceito dos intelectuais (“vídeo não é arte”), parte pela falta de conhecimento que o brasileiro tem de seu próprio audiovisual. Se o primeiro grupo hoje está mais consciente da relevância do movimento, o segundo segue ladeira abaixo, impulsionado diariamente por ataques que querem, cada vez mais, eliminar toda e qualquer memória artístico-cultural do país.

Um grande momento
Cantando no chuveiro.

[15ª CineOP]

1JUNGLE, Tadeu. “Vídeo e TVDO: Anos 80”, em Arlindo Machado (org.),
Made in Brasil: três décadas do vídeo brasileiro. São Paulo. Iluminuras: Itaú Cultural. 2007. p. 203.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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