Crítica | Festival

A Jangada de Welles

(A Jangada de Welles, BRA, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Firmino Holanda, Petrus Cariry
  • Roteiro: Firmino Holanda, Petrus Cariry
  • Duração: 75 minutos
  • Nota:

Em 1942, em plena Segunda Guerra, os Estados Unidos seguiam com sua política propagandista. Uma das ações era a “aproximação cultural”, vem daí o Zé Carioca e It’s All True, filme encomendado a Orson Welles dividido em três partes, duas delas sobre o Brasil: Carnaval e Jangadeiros. Por problemas de produção, o filme acabou engavetado. As imagens redescobertas puderam ser vistas no documentário É tudo verdade – Um filme inacabado de Orson Welles, de 1993. A passagem do diretor pelo Ceará é a premissa do longa-metragem A Jangada de Welles, de Petrus Cariry e Firmino Holanda, respectivamente diretor e montador das ficções Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, O Grão e Mãe e Filha.

A habilidade de Cariry com a escolha das imagens é reconhecível, assim como a precisão da edição do co-diretor Holanda. O material de arquivo é vasto e está bem costurado com os depoimentos dos moradores que vivenciaram a experiência. Há a definição de dois pontos de interesse no longa: a história da morte de Jacaré, na reconstituição da reide de jangadeiros de Fortaleza ao Rio de Janeiro, e a alteração capitalista da praia onde as imagens foram filmadas. Juntando os dois, Welles, seja em narrações sombrias, interpretado na ficção ou na imagem que deixou em cada um dos que trabalharam em seu filme.

A Jangada de Welles

Os planos inventivos do diretor americano se misturam aos de Rogério Sganzerla e às imagens do presente pelos realizadores cearenses. Naquela parte do mundo que não chama a atenção, para onde pouco se olha, o que se vê contrasta com o glamour de Hollywood no lançamento de Cidadão Kane. Imagens importadas e notícias de jornal sobre a chegada do diretor dividem a tela, assim como as cores de agora com o preto e branco de antes. Passado versus presente, a ilustração de propagandas institucionais contra a verticalização dominadora. No meio, os pescadores, suas jangadas e a desimportância impressa no engavetamento das imagens e na especulação imobiliária.

A reide é o ponto alto do documentário e ganha bastante atenção, seja no depoimento do filho de Jacaré, na narração da pesquisadora, na repetição dos discursos desconexos e no próprio recontar da história. É quando A Jangada de Welles explora a ditadura de Getúlio Vargas e sua preocupação demagógica e populista com o trabalhador. Imagem e palavras que tentam enfeitar o menosprezo pela função exercida pelos pescadores. Menosprezo que está também no modo como Fortaleza se “moderniza”. Do sertão-mar dos letreiros às mudanças em Mucuripe e à urbanização do espaço destaca-se a exclusão de classes.

A Jangada de Welles

São questões relevantes e bem dispostas graças a uma pesquisa profunda e elaborada, que descobre e apresenta não só a reide (e sua reencenação) pelas lentes de Welles, mas também vários outros eventos recuperados em materiais de arquivo, alguns domésticos outros jornalísticos. A mensagem se destaca, o filme se estabelece, mas não sobrevive ao desequilíbrio.

Em sua trama, A Jangada de Welles quer dar conta de tudo e acaba se enrolando em seu intento. O vigor do início e o interesse na história não se mantêm completamente, a tensão vai se perdendo gradualmente à medida em que o filme vai se distanciando de sua premissa. Porém, essa ausência é amenizada por aquilo que ficou dos dois primeiros terços do filme e pela identificação de um real problema do país: o descaso com toda e qualquer comunidade hipossuficiente. Isso já estava ali antes, com as casas de veraneio e as dos pescadores, a alta taxa de mortalidade infantil e outras mazelas conhecidas, antigas e mais atuais do que nunca.

Um grande momento
A fase romântica do Mucuripe.

[15ª CineOP]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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