Crítica | Festival

Helen

(Helen, BRA, 2019)

  • Gênero: Drama
  • Direção: André Meirelles Collazzo
  • Roteiro: André Meirelles Collazzo
  • Elenco: Thalita Machado, Marcélia Cartaxo, Tony Tornado, Roberto Rezende, Ana Paula Lopez, Wellington Coelho, Luiza Braga, Elzio Vieira
  • Duração: 98 minutos
  • Nota:

Em um cortiço do Bixiga, Helen mora com sua avó. Vividas por Thalita Machado e Marcélia Cartaxo, respectivamente, são elas que apresentam um lado do tradicional bairro paulistano, onde tantas origens e movimentos se misturam e pessoas dividem o mesmo espaço. Com uma trama relativamente simples, o longa de Andre Meirelles Collazzo se divide entre o descobrir das personagens e dos espaços.

Acompanhamos Helen na escola, nos passeios com o pai, nas visitas à mãe, nas brincadeiras com as amigas e em muitas brigas na escola e na rua. Aliás, essa é a opção primeira e talvez aí esteja a primeira questão. Ao destacar comportamentos como este na apresentação de um personagem, o roteiro (qualquer roteiro, não especificamente este) pode estimular duas reações: o afastamento ou o julgamento. Como o carisma da personagem e de sua intérprete são enormes, sobra a segunda opção. E é assim que o filme, mesmo que involuntariamente, pode condenar a relação que tenta exaltar, no caso, de avó e neta, em uma configuração familiar diversa da tradicional.

Fora isso, o longa Helen consegue encontrar sua cadência no carinho entre as duas personagens, capturando tanto gestos sutis quanto óbvios, e passando por estranhamentos e muito companheirismo. É difícil estar longe da protagonista, em seu objetivo maior, o presente da avó, e nos sonhos coloridos ou no passeio com o pai. A menina tem uma espécie de imã, resultado da atuação da Thalita, muito à vontade, e a percepção e segurança do diretor na condução da atriz estreante. 

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Do outro lado temos Cartaxo, que dispensa apresentações. Grande atriz, ela transita entre humores com facilidade. Em um papel muito mais contido do que em Pacarrete, deixa clara a dureza de sua personagem, seca e direta. Ela é incisiva nas questões do cortiço, no tratar com o filho ou no modo como enfrenta o poder instituído. Por outro lado, se derrete, mesmo que sem ser muito explícita, com pequenos gestos da neta. Apesar da aspereza que lhe é habitual, deixa óbvio o seu afeto. E uma relação interessante intra e extra-fílmica, entre o novo e antigo, entre a experiência e a estreia.

CineOP: Helen (2019)

O longa tem ainda boas participações, incluindo a do também veterano Tony Tornado, um dos amigos da família; Ana Paula Lopez, a manicure, ou mesmo Luiza Braga, como a mãe. Helen é fiel ao mostrar, dessa vez se afastando dos julgamentos, a relação de sua protagonista com a própria configuração familiar, personalizando essa visão. Ali está a identificação, mas também está a noção de uma realidade por ela desenvolvida. A menina, por exemplo, não nomeia o vínculo parental com ninguém além de sua avó.

Porém, mesmo com vários acertos, há um certo incômodo na aproximação de Collazzo a um ambiente que claramente não é o seu. O distanciamento de algumas cenas é incapaz de atingir verdades que fariam muito bem à trama e há um certo apego a tomadas que se perdem na curiosidade e exotização. Todo o trajeto da cena final, um longo plano-sequência pelos caminhos do cortiço, demonstra além de uma vontade de se afirmar como criação imagética elaborada, a dificuldade em se ambientar do diretor. O problema é sério, mas está contraposto pelo encantamento real com suas duas personagens principais. No final das contas, elas fazem valer o filme.

Um grande momento
“Obrigada”

[15ª CineOP]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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