Crítica | Festival

Madame

(Madame, SUI, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Stéphane Riethauser
  • Roteiro: Stéphane Riethauser
  • Duração: 94 minutos
  • Nota:

Há um tempo eu criei uma definição que sigo usando até hoje: filmes de churrasco. No começo, quando entre 10 documentários 6 eram feitos em cima de registros caseiros, era difícil encontrar coisas que fossem além da individualidade, do egocentrismo, mas o tempo, senhor do universo, deu um jeito de ir ajustando as coisas. A proporção nem deve ter diminuído muito, talvez até esteja maior com o auge da ressignificação que estamos vivendo, mas há muito mais coisa que transcende o mundo particular. Não é o caso de Madame, o clássico filme de churrasco, da família para a família, que vai contar uma história que já vimos muitas vezes antes, tendo como foco o retratado, que é também quem retrata.

Porém, não é que tem um monte de elementos que pode fazer um filme nessa exata configuração dar certo? Pois bem, Madame é uma carta de amor de um neto para a avó. Tem toda a questão ególatra de filmes do tipo, tem uma superexposição de uma vida que não interessa a todos, mas Stéphane Riethauser é habilidoso com as imagens, tem tino para a construção do discurso e, o mais importante, tem uma avó tão carismática que nunca queremos estar longe dela.

Madame (2019)

Com imagens captadas pelo pai do diretor, um aspirante a cineasta, Stéphane conta os primeiros anos de sua vida. A questão da pessoalidade alcança lugares interessantes, como a falibilidade da memória ou a falta de desejo de encará-la. Além do diretor, a única que tem um espaço no filme é Caroline, a avó, em interações provocadas por ele ou em gravações na secretária eletrônica. As inserções são muito bem pontuadas, assim como há toda uma linha lógica para usar o arquivo.

Ao falar do pai, Stéphane busca as imagens mais elaboradas, claramente inspiradas pela Nouvelle Vague. Ao pensar em sua própria sexualidade, traça os caminhos social, ele no parque de diversões cavalgando em um cavalo branco à procura de sua princesa ou saindo de uma moto de polícia; e individual, onde não há mais filmagens e os registros são todos estáticos. Apenas quando se assume para a família que os vídeos voltam a dominar a tela. Vem dessa consciência estética uma boa parte do que ameniza os traços do subgênero por mim criado.

Madame (2019)

Mas ele ainda está ali marcado, gritando entre o encantamento com Caroline e a boa noção gráfica. Em um determinado momento, o diretor permite uma participação externa: seus pais vêm contar como receberam a notícia de que ele era gay. A situação é importante, já que está ligada a uma decisão de Stéphane com relação a Caroline, mas não existe qualquer coisa que justifique a participação ali, naquele momento, de pessoas de quem se fala desde o momento primeiro do filme, sem qualquer intervenção.

Há verdade na intenção de alcançar a documentada, mas o cineasta tem dificuldade em afastar-se de si mesmo. É uma postura que se reafirma várias vezes, nas imagens de assembleias, congressos e entrevistas de TV. Há um desequilíbrio entre as duas histórias que ele quer unir em uma única, o rumo acaba se perdendo. Mas, como disse antes, Madame tem um porto seguro, aquele que também deve ter sido o de Stéphane no passado: Caroline, uma mulher que peitou a sociedade machista e se estabeleceu. Pena que ela tenha que dividir a atenção, mas o tempo com ela é sempre uma delícia.

Um grande momento
Quasímodo

[8º Panorama do Cinema Suíço]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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