Crítica | Festival

No Meio do Horizonte

(Le milieu de l'horizon, SUI, BEL, 2019)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Delphine Lehericey
  • Roteiro: Joanne Giger
  • Elenco: Clémence Poésy, Laetitia Casta, Patrick Descamps, Thibaut Evrard, Fred Hotier, Michaël Bier, Luc Bruchez, Guillaume Lemarre, Lisa Harder
  • Duração: 90 minutos
  • Nota:

O calor é insuportável. As consequências vêm para preocupar toda uma comunidade que depende da agricultura para sobreviver, inclusive a família de Gus, que vive do comércio de aves. No Meio do Horizonte encontra neste cenário de suor e morte literal uma metáfora para o novo, a mudança, ainda que não compreendida de pronto. 

Delphine Lehericey cria um jogo imagético para destacar a tensão, o dourado de um sol que não dá trégua contrasta com interior escuro da casa da família. A felicidade que alguns encontram fora daquele espaço, não tem lugar ali, não tem respiro. É curioso como, nesse jogo, a diretora sutilmente destaca a força das mulheres em um ambiente obviamente machista.

No Meio do Horizonte

Gus, com sua pouca idade, observa tudo sem compreender muito bem. Embora conte a história de libertação de Nicole, é no menino que o filme se ancora, em seu entendimento das tradições, sua confusão de sentimentos e sua vontade de estar longe de tudo aquilo. São muitas as cenas em que ele está se deslocando, encharcado de suor, tentando se livrar do ritual de recolher galinhas mortas ou de uma descoberta que não consegue processar.

Lehericey é habilidosa na construção desse universo, na atenção aos detalhes, na definição temporal. Assim como seu protagonista, usa poucas palavras mas se faz entender, ilumina e colore ambientes antes pesados para marcar a alegria, e encontra na sutileza a marca do tempo.

No Meio do Horizonte

No Meio do Horizonte é moderno em contexto, mas não se envergonha de assumir uma estrutura permeada pelo cinema clássico francês, ao mesmo tempo em que subverte na dinâmica da câmera, se distanciando para compreender e expor aqueles corpos; está interessada em captar as interações, mais do que isso, dar uma forma aos sentimentos.

Com um roteiro simples e sofisticação no filmar, a diretora transforma uma história banal, já vista várias vezes, em algo com várias camadas. A credibilidade de Luc Bruchez, em um papel difícil, é fundamental para isso. Assim, sem pretensões, No Meio do Horizonte chega para falar sobre amadurecimento e compreensão, ainda que num ambiente hostil, que tenta contrariar tudo isso.

Um grande momento
“Deita, você está cansado”

[8º Panorama do Cinema Suíço]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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