Crítica | Festival

Praça Needle Baby

(Platzspitzbaby, SUI, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Pierre Monnard
  • Roteiro: André Küttel
  • Elenco: Sarah Spale, Luna Mwezi, Jerry Hoffmann, Michael Schertenleib, Lea Whitcher, Emilio Marchisella, Jorik Wenger
  • Duração: 98 minutos
  • Nota:

Ali entre os anos 1980 e 1990, uma imagem bem chocante era impressa nos jornais e repetida na televisão, uma deprimente praça em Zurique, a maior cidade da Suíça, cheia de pessoas drogadas. Talvez hoje, depois da explosão de crack e de uma proximidade com o problemas dos dependentes, isso não fosse tão impactante, mas na época era. Muito. Sem saber o que fazer com o problema, as autoridades suíças usaram da força para fechar, sem sucesso, o espaço chamado Platzspitz, ou Praça das Agulhas. Foi somente quando programas mais humanos foram instituídos que as coisas começaram a melhorar. Praça Needle Baby volta ao local, ao seu fechamento e à distribuição de apartamentos para viciados em seguida.

O filme, dirigido por Pierre Monnard e baseado no livro de Michelle Halbheer “Platzspitzbaby: Meine Mutter, ihre Drogen und ich”, algo como “bebê da Praça das Agulhas: minha mãe, suas drogas e eu”, não tinha como ser algo leve. Mas faz questão de forçar ainda mais a mão, criando uma experiência angustiante e que desperta muitos sentimentos contraditórios em quem assiste ao filme. A Praça das Agulhas é apresentada, de pronto, por uma menina vagando entre o lixo e os viciados do local. Logo de cara, ao ver uma criança naquele ambiente procurando por algo, assustada e com medo, já indica a intenção do diretor. Vai ser tudo extremo.

Panorama Digital do Cinema Suíço: Praça Needle Baby

Isso fortalece a empatia com o público. Mia, vivida por Luna Mwezi, muito bem no papel, é alguém que tem que aprender a lidar com a fase adulta muito antes de conhecer qualquer coisa da vida. Boa parte do tempo dedicada à mãe, com quem escolheu ficar, ela chega a uma cidade pequena, à sua nova casa, e demonstra as marcas de ser um bebê da praça. O roteiro ressalta o estranhamento, a dificuldade de integração e a postura introvertida. Os únicos respiros vêm com a presença colorida e feliz de seu amigo imaginário, que canta sempre a sua música favorita para acalmá-la.

A questão das drogas e a imagem da mãe – em atuação entregue de Sarah Spale, que cria uma personagem desprezível – são tratadas de um jeito bastante complicado, como deve ser na realidade, claro, mas na contramão de tantas políticas de conscientização e reinserção. O fato da dependência ser uma doença não é algo que chegue a ser destacado, pelo contrário, o que se faz questão de colocar na tela são os absurdos que a mulher faz com a menina. Ao estimular uma completa falta de empatia com qualquer doente que se enquadre nesse caso, confirma todo e qualquer tipo de estereótipo.

Praça Needle Baby

É preciso destacar que o livro é baseado na experiência real de Michelle com sua mãe, mas é na falta de clareza e definição da doença que está o problema. A opção, porém, é intencional. A ideia do filme é seguir um caminho cada vez mais e mais opressivo, pesado. Assim, a vida de Mia em suas descobertas adolescentes contrasta tanto com o interior de seu apartamento ou à casa abandonada onde a mãe costuma passar o tempo. A imundice da praça está nas paredes, nas pessoas, para onde quer que se olhe.

Outro elementos narrativos ainda são utilizados para aumentar a tensão e a repulsa, como a menina pequena com a boneca sem olhos, o cachorrinho, a ex-amiga e a cena que escolhe para encerrar o filme. Não dá para negar que Praça Needle Baby chega exatamente onde queria chegar e provoca tudo aquilo que queria provocar, mas, apesar do sucesso da obra, o que realmente vale naquela ultra-exploração da desgraça? Até que ponto filmes que demonizam os viciados em drogas, mostrando a não efetividade de medidas alternativas de controle da doença – sem destacá-la como tal -, ajudam? É aquela velha questão de, sim, é possível falar de tudo, mas é preciso ter cuidado com o modo como isso vai ser feito.

Um grande momento
Deixando o amigo imaginário.

[8º Panorama do Cinema Suíço]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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