Crítica | Festival

Pequena Mamãe

(Petite Maman, FRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Céline Sciamma
  • Roteiro: Céline Sciamma
  • Elenco: Joséphine Sanz, Gabrielle Sanz, Nina Meurisse, Stéphane Varupenne, Margot Abascal
  • Duração: 72 minutos

Os filmes de Céline Sciamma giram sempre em torno de protagonistas que olham – que dirigem seu olhar para algo ou alguém e observam, com um objetivo de posterior encenação. Pequena Mamãe não é diferente. É um longa sobre uma garotinha, Nelly (Joséphine Sanz), que olha para sua mãe, Marion (Nina Meurisse). E afetada pela recente morte da avó (Margot Abascal), ela se dá conta, talvez pela primeira vez, de que aquela mulher não é apenas sua mãe. É uma pessoa, que nasceu, cresceu, foi criança, filha, teve toda uma história de vida antes da existência de Nelly – e, um dia, vai morrer.

Ainda que lúdico, afetuoso e prenhe de um porvir – que a cineasta mantém logo ali, no extracampo, tão perto e tão longe – Pequena Mamãe é um filme impregnado por essa presença da morte. A ideia de que mesmo um aniversário é a morte de um ano que fica para trás, de alguém que fica para trás, e o nascimento de uma pessoa nova. De que esvaziar a casa da avó é também apagar a Marion que existiu ali, a Marion criança, que Nelly descobre que quer conhecer – um pedaço da mãe que ela deseja proteger. De que perder alguém que se ama é isso: é como perder um órgão, perder um pedaço de si mesmo. É morrer um pouco. A morte da avó é também a morte de um pedaço da mãe, e a morte de um pedaço de Nelly.

Pequena Mamãe
Divulgação

E por meio de seu olhar, e da “magia do cinema” (um clichê tão grande, uma verdade tão grande), a pequena protagonista encontra uma forma de – se não superar a morte – salvaguardar esses pedaços. Ao observar a casa da avó, cada detalhe, cada objeto sendo empacotado, e como aquele lugar afeta sua mãe, Nelly se torna capaz de enxergar memórias ocultas ali. E como “o que é lembrado vive”, a realização de Sciamma permite à garota reencenar, trazer à vida, algumas dessas lembranças. Nelly é assombrada pela sensação de que seu último adeus à avó não foi adequado, não foi o suficiente. A mise-en-scène mágico-realista proposta pelo roteiro do filme se torna, assim, a encenação de um adeus que, ao invés de dobrar-se à arbitrariedade inevitável da morte, celebra a vida.

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Porque, se Retrato de uma Jovem em Chamas era a história de como uma mulher era capaz de sobreviver e r/existir dentro da outra por meio do amor romântico, Pequena Mamãe mostra que mulheres r/existem e sobrevivem também nas filhas, netas, nas gerações que vêm depois. Nelly tem o nome da bisavó; quando tenta, de certa forma, “plantar” a si mesma na infância da mãe, descobre que sempre esteve lá, antes mesmo de ter nascido; e, acima de tudo, num casting nada sutil, a nova amiga (cujo nome não revelo aqui, em respeito aos mais spoiler-fóbicos) que a protagonista faz enquanto o pai (Stéphane Varupenne) esvazia a casa da avó é interpretada por Gabrielle Sanz, irmã gêmea da atriz que vive Nelly.

Pequena Mamãe
Divulgação

Todas essas mulheres vivem, morrem e renascem uma na outra. Basta uma troca de olhares – como na cena final – para reconhecerem isso. No cinema de Sciamma, a cumplicidade feminina é esse segredo – não necessariamente escondido, mas que precisa de alguém específico para ser contado – capaz de suplantar a morte.

O que torna Pequena Mamãe tão único é que, no filme, todas essas ideias (bastante complexas) são encenadas a partir do olhar de uma criança. A realizadora francesa abre mão dos longos planos-sequência e dos diálogos elaborados de Retrato em favor de uma mise-en-scène imaginada por uma menina com o propósito de entender o mundo à sua volta. Para isso, Sciamma recorre a uma floresta miyazakiana (a natureza é o lugar da infância para a cineasta, como ela já havia demonstrado em Tomboy), que serve como um portal em que as cores do outono assinalam o tom crepuscular do longa e em que duas garotas, uma azul, outra vermelha, encontram-se, costurando dois tempos em uma mesma história. Pequena Mamãe é, ao mesmo tempo, a encenação de um adeus e uma reflexão sobre como um olhar – de uma garota, da câmera, do cinema – é capaz de desafiar a permanência da morte, garantindo que algo/alguém esteja em perpétuo estado de renascimento como uma nova memória, uma nova imagem, uma nova pessoa.

Um grande momento
As duas garotas encenam um pequeno teatro e dizem verdades que só o faz de conta revela

[Festival Internacional de Cinema do Rio 2021]

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Daniel Oliveira

Daniel Oliveira é mestrando em Cinema pela Universidade da Beira Interior e crítico autoexilado, filiado à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e à Fipresci. Aguarda ansiosamente o meteoro, ou o reboot da civilização dirigido por alguém que não seja homem, branco e/ou hétero.
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