Crítica | Outras metragens

3 é 5

Entre visões

(3 é 5, BRA, 2021)
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Pedro Castelo Branco
  • Roteiro: Diógenes Moura
  • Duração: 13 minutos

A feira é um mundo que surge e desaparece em um único dia, que passa como se não tivesse acontecido até o próximo mesmo dia da semana. Você acorda, ela está lá e, quando vai dormir, já foi. E sua presença é grandiosa, tumultuada; muda o espaço com seu barulho e seu odor, e junta as pessoas, que agora ocupam o canto dos carros. 3 é 5 se interessa pela feira, vai atrás da transformação da rua, antes de o raiar do dia, até a volta à configuração anterior. 

O diretor Pedro Castelo Branco opta pelo preto e branco e trilha marcante para fazer o seu retrato. A escolha causa estranhamento por deixar perceber uma tentativa de refinamento ou distanciamento de aproximação do objeto documentado que incomoda, mas isso vai se revertendo à medida que as intromissões do diretor acontecem.

Além da observação, 3 é 5 pontua o filme com aquilo que acha interessante. Primeiro destaca o que não se ouve direito; depois legenda falas e é literal, descrevendo aquilo que está na tela, até que se desvincula da imagem. Ainda que se perceba uma certa ingenuidade, são essas intervenções que trazem algum desafio ao curta e ao espectador que o assiste.

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Além disso, Castelo Branco tem uma boa percepção estética e faz belas imagens, como aquela cheia de significado que encerra o filme. E assim constrói a sua feira, uma forma permanente de mostrar a impermanência, e cria um universo convidativo, por saber aproveitar a familiaridade e jogar com as palavras.

Porém, por mais que haja interesse e envolvimento, aquela sensação do distanciamento que apareceu lá no começo não abandona o documentário. É interessante pensar que a feira é o lugar onde todos se encontram e que as visões dela são múltiplas, mas há algo nesse olhar ao outro — jamais mal intencionado — que demonstra a dificuldade de ultrapassar certas barreiras. Para quem faz e para quem vê.

3 é 5 parte de uma ideia simples, pensando num período determinado — esses tempos pandêmicos — e esbarra nas próprias limitações, mas trata de um tema tão rico em si e onde tantas relações podem ser estabelecidas para além do filme, incluindo o questionamento de visões e posicionamentos, que provoca o espectador. E isso sempre é positivo.

Um grande momento
Neymar Jr.

[16º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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