Crítica | Festival

Salamandra

(Salamandra, BRA, ALE, FRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Alex Carvalho
  • Roteiro: Thomas Bidegain, Alex Carvalho, Alix Delaporte
  • Elenco: Marina Foïs, Maicon Rodrigues, Anna Mouglalis, Bruno Garcia, Allan Souza Lima, Thardelly Lima, Buda Lira, Suzy Lopes
  • Duração: 120 minutos

Era fim dos anos 1980 quando o escritor Jean-Christophe Rufin, então adido cultural da França no Brasil, conheceu a história de uma francesa solitária que veio ao Brasil e se apaixonou por um gigolô no Recife. Em 2005, essa história transformou-se no livro “Salamandra” e agora, depois de estrear no Festival de Veneza, chega às telas brasileiras como parte da seleção do 16° Fest Aruanda. Dirigido por Alex Carvalho, o filme de mesmo nome se desloca temporalmente para o presente, mas não se atualiza.

Atento aos detalhes, com fotografia de Josée Deshaies (Saint Laurent e L’Apollonide), o diretor apresenta bem a depressão de sua protagonista, Catherine, alguém que, em luto, encontra-se imersa no vazio da perda, e vai despertando aos poucos. Parte da motivação para esse despertar está no encontro com Gilberto. Com ótimas atuações de Marina Foïs (Polissia) e Maicon Rodrigues (atualmente no ar na novela Nos Tempos do Imperador), a primeira parte do filme vai no crescente, coerente com sentimentos e sensações do encontro e entrega.

Porém, se a abordagem do relacionamento é coerente, nas sutilezas e, principalmente, no tempo que dá à personagem, o modo como a retrata em consonância com o ambiente já tem traços incômodos e isso é algo que vai se agravando no decorrer de Salamandra. O mesmo se dá com Gil. Tentando marcar caminhos contrários, as armadilhas dos estereótipos estão sempre armadas e o roteiro não consegue escapar delas, em coadjuvantes, pequenos gestos, olhares e frases.

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Mesmo que bem filmado, com muitas qualidades técnicas, é complexo ver um filme que traz tantos elementos atuais, mas tem uma alma presa décadas atrás, onde discursos e discussões foram mais do que superados. São imagens repetidas de uma representação única antiquada que por tanto tempo foi a única, de histeria e mau caratismo.

Para além do estereótipo, há uma dificuldade de Salamandra lidar com sua própria história. Se o primeiro ato é contido e o segundo entregue, ambos construindo o sensorial da relação e dando conta da trama, o terceiro não sabe como lidar com as informações que sobram desses dois pontos e se atropelam. As cenas bem decupadas do início dão lugar a passagens apressadas e pouco elaboradas, o tempo aos personagens se transformam em agitação vazia, e os coadjuvantes precisam suprir lacunas tolas.

Perdido em si mesmo e no próprio tempo, da trama e do contexto, Salamandra é um filme que incomoda. Tem qualidades técnicas inegáveis, e pode ser uma história que faria sentido décadas atrás, quando ninguém falava ou olhava para onde devia. Talvez, quem sabe, pudesse ser atualizada, mas nasce fora de sua época.

Um grande momento
Saia do sol

[16º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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