Crítica | Catálogo

Perdi Meu Corpo

(J’ai perdu mon corps, FRA, 2019)
Animação
Direção: Jérémy Clapin
Roteiro: Jérémy Clapin, Guillaume Laurant
Duração: 81 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

A animação francesa Perdi Meu Corpo fez história na Semana da Crítica do Festival de Cannes ano passado, quando se tornou o primeiro filme nesse formato a levar o Grande Prêmio Nespresso. Feita em 2D por Jérémy Clapin, que escreveu a história e o roteiro com Guillaume Laurant (de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), a produção é distribuída pela Netflix e entra na briga pelo Oscar de Melhor Animação, disputando inclusive com um filme da gigante de streaming, Klaus.

Sem grande momentos catárticos ou direito a uma conclusão feliz, a animação trata de jovens adultos – no caso, do pianista meio aéreo, galáctico, Naoufel. Ele vive com um colega de quarto insuportável e um senhorio super frio, quando, num terrível dia, tem sua mobilete atropelada. Trabalhando como entregador de pizza, ele resolve seguir seu rumo e a entrega da vez o faz conhecer Gabrielle. Na verdade ele só ouve a voz dela, que se torna uma obsessão e uma constante em sua vida.

A trilha surrealmente triste composta pela banda indiepop The Dø torna a jornada tortuosa da mão perdida – a la Fievel: Um Conto Americano – mais trágica. Melancolicamente, Paris é o cenário para uma história de amor platônico e do desamor de Naoufel por si, tão deprimido com a sua vida de órfão que decide por se apartar da realidade.

Alternando cenas do corpo (Naoufel) e de uma mão que escapa de ser dissecada e vaga como um membro invisível em busca de sua completude, Perdi Meu Corpo vai conduzindo o público até uma conclusão inefável. Que a busca do rapaz por sentido e amor não vai levá-lo por cenas pitorescas e coloridas como a heroína parisiense de franjinha; que ele se conectará com Gabrielle, mas – e nesse ponto a simetria entre a montagem linear e não linear da infância e presente do corpo, além da mão, é o diferencial – não será o suficiente para mantê-lo completo.

É bonito ver um filme tão artesanal, ousado e que aborda com singeleza a depressão e o abismos dos sonhos da geração millenial mas ele parece muito deslocado ao ser alçado num panteão das melhores animações da temporada, que deixou de fora Frozen II, por exemplo.

Mas é boa a sensação de ver a tradicional animação francesa ganhando um espaço na premiação da indústria hollywoodiana. O Brasil já teve esse gostinho com um filme também existencial, que foi O Menino e o Mundo. Perdi Meu Corpo é um filme dramático com pitadas de romance que fala de impossibilidades. Da matéria que é feita a vida e daqueles momentos – e amores – que escapam das nossas mãos.

Um Grande Momento:
O gravador que reconta a separação e narra o salto.

Links

IMDb

Assistir na Netflix

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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