Crítica | Streaming

Perfeição Insondável

A fina flor da porcaria

(What Lies Below, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Braden R. Duemmler
  • Roteiro: Braden R. Duemmler
  • Elenco: Ema Horvath, Troy Iwata, Danny Corbo, Mena Suvari, Trey Tucker, Olan Montgomery, Haskiri Velazquez
  • Duração: 87 minutos

Os toques grosseiros presentes desde os primeiros planos de Perfeição Insondável não escondem seu propósito, nem é da vontade de seu diretor e roteirista, o estreante Braden R. Duemmler. Os super closes beirando a esquizofrenia do perfil de Mena Suvari entregam o desacerto da harmonia da produção, que em sua cadência promove uma ala marginal do cinema que não é captada tão rapidamente. Mas, premissa apresentada, os aspectos pouco usuais de seu andamento, suas cores, seus signos, sua aparência desagradável ao que se acostumou a chamar bom gosto, entregam que essa moldura é pretendida, e não proveniente de casual falta de talento. 

Duemmler procura sempre planos muito arriscados para contar sua história muito safada sobre o encontro de uma adolescente com sua mãe pós-férias, e conhece o novo namorado da mesma. É tudo muito simples (simplório?) narrativamente, o elenco é muito enxuto – só tem mais uma personagem em cena além desses três – e o filme se resolve absolutamente bem na sua curtíssima duração com os elementos que tem, sem qualquer intenção de elevação da sua premissa, mas também sem deméritos equivalentes. Como já dito, tudo corre na direção de suas próprias intenções de montar essa atmosfera carregada de vagabundagem.

Perfeição Insondável

De visual inspirado nos anos 1980, sua trilha repleta de sintetizadores e sua luz carregada nos neons, nos brilhos, na iluminação propositadamente artificial e nos spots bregas, Perfeição Insondável, com esse absurdo título nacional, abarca graças ao batismo da Netflix, uma miríade de homenagens a linhagens do cinema e do audiovisual de origens distintas, do melodrama noir às ficções B ambas dos anos 1950, até avançar no tempo por três décadas para encontrar similares como Invasores de Marte. Com um olhar menos viciado, conseguimos encontrar não apenas essas referências como inúmeras outras, dando ao filme um caráter pra lá de sui generis dentro do catálogo “netflixiano”.

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Ficam as referências, que vêm sendo utilizadas por muitos cineastas da atualidade, que vão de Nicolas Winding Refn a Adam Wingard, passando por Bertrand Mandico e Yann Gonzalez, mas o diretor aqui parece mais seguro de suas intenções que necessariamente de suas aptidões, muito mais modestas que as de seus pares. Logo, um recurso crucial que falta a Duemmler é o bom humor, indispensável a sequências como a do banho da protagonista, testemunhado com uma volúpia que deveria ser minimamente ridicularizada. A ausência dessa chave para o patético lega ao filme um estado de seriedade que não convém ao que sua premissa, desavergonhadamente ridícula, deveria encampar.

Perfeição Insondável

Na falta do reconhecimento de suas limitações e das bizarrices serem tratadas com uma deferência indevida, acabam por realçar também na produção elementos que não definem qualidade a princípio, como o fato da protagonista vivida pela atriz Ema Horvath ter 10 anos a menos que a própria, e isso ficar muito claro na sua visão deficiente do que seria uma adolescente introspectiva, beirando o autismo. Seu tom não apenas é equivocado, como varia de cena a cena, indo da timidez inequívoca até uma expansividade incompreensível. Ainda que também esse detalhe contribua para o todo desconfortável da produção, esse desacerto não é assimilado pela produção como a falta de talento master de Trey Tucker ou do espaço dado a Mena, de ninfeta de Beleza Americana e American Pie a uma mãe muito jovem aqui – ambos muito melhor inseridos que Ema. 

Perfeição Insondável é, por assim dizer, um produto que não tem sido frequentemente ambicionado pelo cinema ou pelos autores, com muito mais riscos do que a arte hoje gostaria de abarcar. Que o filme escolha cada um deles de maneira muito consciente, invista em sua visão e leve suas decisões até próximo ao limite é algo a se aplaudir. Caso seu autor invista nessa toada, e seu talento seja lapidado ao longo dos anos, podemos estar diante de um cineasta muito promissor surgindo, hoje ainda indeciso e refém de uma clara inexperiência. Esse movimento revisionista de amalgamar gêneros, tempos e referências, no entanto, provoca renovação analítica e promove uma deliberação de novas ideias, para além do que o cinema acha que deve propor. 

Um grande momento
Mergulho no lago 

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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