Crítica | Streaming

Power

(Project Power, EUA, 2020)

  • Gênero: Ação
  • Direção: Henry Joost, Ariel Schulman
  • Roteiro: Mattson Tomlin
  • Elenco: Jamie Foxx, Joseph Gordon-Levitt, Dominique Fishback, Rodrigo Santoro, Courtney B. Vance
  • Duração: 111 minutos
  • Nota:

E já faz 10 anos que Catfish lançou a dupla de diretores Henry Joost e Ariel Schulman como promessas de cinema ambicioso e minimamente substancial. Se uma década depois eles não conseguiram repetir o entusiasmo e a efervescência narrativa da estreia, não dá pra dizer que eles são incoerentes ao perseguir um recorte temático com a qual se comprometeram desde 2010 e volta a fazer sentido agora em Power, o mais vultoso produto Netflix da temporada que aponta, sem exercer uma curva autoral hermética, uma proposta que o conecta aos longas anteriores sem criar um elo estrutural, só conceitual mesmo.

Seus interesses principais passam por uma investigação da sociedade jovem com o que de fantástico tem na modernidade, e o quanto esse mesmo departamento contém elementos que positivizam ou negativizam essa relação. Desde o alcance avassalador da internet até a conexão viciante em jogos por aplicativo, passando por subdivisões do medo, indo da tecnologia que tudo vê até chegar.em possíveis tragédias pandêmicas, seus jovens protagonistas descobrem um novo mundo bem pouco admirável e precisam domar relações que serão forjadas a partir dessas mudanças de parâmetros, seja nesse plano ou não, de maneira fabular ou não.

Joseph Gordon-Levitt em Power (2020)

Nada disso é uma justificativa para discorrer sobre elogios à seu novo longa sem culpa, mas definitivamente é uma forma de olhar para um grupo de filmes que é constantemente atacado, não sem motivo, ao passo que há uma busca por um cinema que possibilite essa reflexão (ainda que vaga) em meio a injeções de adrenalina eventuais. Por serem eles mesmos dois jovens predispostos a fotografar seu entorno sem tematiza-los de maneira densa e sim utilizando uma linguagem de comunicação juvenil, uma parcela considerável da crítica os abandonou depois de sua estreia e os despreza; ainda que não pretendam revolucionar coisa alguma, Henry e Ariel pontuam seus longas com sinceridade de intenções.

Power tem defeitos e nem estão escondidos. É mais um caso de roteiro que atende às funcionalidades de cada passagem narrativa, esticando seus propósitos eventuais para que seu conceito caiba em cada cena, como o caso do tempo elástico. Isso partindo de um roteiro muito atrelado a uma noção de passagem dos minutos acaba por parecer uma rabugice crítica; seria se o filme não criasse raízes no esquema temporal. Ainda assim, o filme se vende como diversão descompromissada e escapista, que é a base de seu cinema.

Jamie Foxx e Dominique Fishback em Power (2020)

O elenco tem pouco a fazer. O Xerxes de Rodrigo Santoro em 300 parece redigido por uma dramaturgia refinada perto de seu personagem aqui, que abre o filme com uma fala típica de vilão até percebermos que ele não passa de um capanga eventual, bem longe de uma esfera de poder. Os mocinhos vividos por Jamie Foxx (Oscar por Ray) e Joseph Gordon-Levitt (de 500 Dias com Ela) são típicos de manuais de roteiro: o primeiro justifica seus atos com uma história de desvelo familiar, e o segundo é o típico rebelde que ama o que faz. Ambos funcionam muito bem em seus estereótipos porque são ótimos atores, não porque o material narrativo os ajude.

A trama também não contém originalidade (drogas testadas em soldados, o poder que não troca de mãos, mãe doente que precisa de operação, etc…), mas como dito anteriormente, há uma consciência de seu lugar diminuto dentro da cadeia que move o cinema. Power ainda conta com efeitos especiais bem simpáticos e pontuais que dão aceleração a trama mas que não chamam a atenção pra si; um filme que sabe pra quê foi produzido e em que condições será consumido. Passa o tempo sem maiores consequências e… que venha a próxima fatia de pizza.

Um grande momento
Tocha humana

Ver “Power” na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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