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Presas no Paraíso

(Paradise Hills, ESP, 2019)
Fantasia
Direção: Alice Waddington
Elenco: Emma Roberts, Danielle Macdonald, Awkwafina, Eiza González, Milla Jovovich, Jeremy Irvine, Arnaud Valois, Daniel Horvath, Joey Sordyl, Nancy Jack
Roteiro: Brian DeLeeuw, Nacho Vigalondo, Alice Waddington
Duração: 95 min.
Nota: 3 ★★★☆☆☆☆☆☆☆

Ficção científica é um terreno movediço e ardiloso para os pouco habituados pois, além de criar um universo (crível), estabelecer as dinâmicas e leis que regem àquela narrativa e tecer uma costura atrativa permeada por cenários embasbacantes onde personagens cheios de camadas, forças e fraquezas estão em constante dilema não é algo simples. Mas há décadas que o sci-fi está imerso na cultura cinematográfica e trazendo excelentes resultados na forma de produtos díspares como Blade Runner e Maze Runner. Outra disparidade? Sucker Punch – Mundo Surreal e esse Presas no Paraíso.

O filme que Zack Snyder escreveu e dirigiu partindo de uma adaptação de arte sequencial é machista, fetichiza as personagens mulheres, mas, pelo menos, é uma fábula distópica de viés emancipatório, mesmo que isso passe ao largo das intenções de seu realizador. Fato é que, ao narrar o sofrimento de Babydoll e suas colegas de hospital psiquiátrico tentando escapar da dura realidade imposta por homens abusivos e buscando refúgio em sonhos lisérgicos e ultra violentos, elas vislumbram uma maneira de se libertar e fundar um matriarcado.

Emma Roberts em Presas no Paraíso  (Paradise Hills, 2019)

Já o filme, dirigido em 2019 pela espanhola Alice Waddington – que também atua na indústria como figurinista – e que está disponível no Telecine Play, falha miseravelmente nas suas tentativas de ser algo que fuja da normatividade ou que inspire garotas. Presas no Paraíso é um luxuoso desperdício lisérgico de dinheiro, que gravita entre uma tentativa de emular Sucker Punch, com nuances estéticas de Alice no País das Maravilhas ou Através do Espelho. Qual seja a obra de Lewis Carrol em que se inspira, é irrelevante, pois o que é em si é esquecível, além de mal resolvido.

As talentosas Danielle MacDonald (Patti Cake$), Awkwafina (Podres de Ricos) e Eiza González (Em Ritmo de Fuga) se unem à insípida Emma Roberts (Família do Bagulho) como as alunas rebeldes do idílico reformatório para jovens moças, chefiado pela Duquesa, vivida por Milla Jovovich (O Quinto Elemento) no auge da canastrice e longe dos papéis usuais em filmes de ação que tão bem domina.

Com seu cabelo rosa e espírito feminista a la Kate Perry, a Uma da sobrinha de Julia Roberts está no centro da história, já que são as ações dela que movem as outras a tomarem a iniciativa de escapar. Até aí nada de novo, nem o segredo nefasto que o lugar guarda.

Danielle Macdonald, Awkwafina, Eiza González e Emma Roberts em Presas no Paraíso (Paradise Hills, 2019)

Waddington é uma jovem realizadora que acaba de entrar na casa dos 30 anos e, à época da turnê de promoção desse filme, disse que “muitas mulheres desejam dirigir ficção científica pois os traços mais memoráveis desse universo residem em algumas mulheres cuja paixão, compaixão com o outro, vontade de sobreviver e capacidade de adaptação as tornam inesquecíveis, seja a história passada num universo paralelo ou do outro lado da esquina… Importando que essas personagens criam uma empatia, uma conexão emocional tamanha estabelecida em cada sequência, sem a qual fica difícil ter um filme” – em entrevista para a Indiewire. A intenção é maravilhosa mas o que se vê como resultado dessa inspiração em Presas no Paraíso é que ainda há um longo caminho a percorrer, mas que não é impossível de ser trilhado – e outras mulheres tiveram êxito no gênero recentemente, como Claire Denis e seu High-Life.

Vencedor de um prêmio Goya (considerado o Oscar espanhol) de melhor figurino – para Alberto Valcárcel –, Presas no Paraíso, para fazer uma analogia ligeira, é uma bela embalagem, ou um bolo lindamente confeitado mas com recheio sem graça, sem substância e sem suculência.

Um Grande Momento:
Batalha na roseira.

Poster de Presas no Paraíso (Paradise Hills, 2009)

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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