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Procura-se Gonker

Uma amizade especial

(Dog Gone, EUA, 2023)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Stephen Herek
  • Roteiro: Nick Santora
  • Elenco: Rob Lowe, Kimberly Williams-Paisley, Johnny Berchtold, Nick Peine, Savannah Bruffey, Brian Brightman, Holly Morris, Caroline Skyie
  • Duração: 95 minutos

Tendo acabado de assistir no My French Film Festival a O Mundo Atrás de Nós, essa estreia de hoje da Netflix, Procura-se Gonker, ganha um acréscimo de percepção. Ambos são protagonizados por homens jovens que, de alguma maneira, se cobram por suas vidas ainda não terem começado, da maneira como eles e a sociedade esperavam e/ou exigem. Ainda que o protagonista aqui seja 10 anos mais jovem, esse filme é uma daquelas provas do que sempre ouvimos falar sobre a relação do norte-americano com seus filhos; acabada a faculdade, acabou também casa dos pais. E qualquer saída diferente do parâmetro, como um possível retorno, é encarado como um imenso fracasso coletivo, não apenas da família mas principalmente do indivíduo. 

É por isso que Fieldings se sente tão derrotado. Chutado pela namorada e sabendo que nenhuma ideia lhe ocorreu quanto ao futuro às vésperas da formatura, ele decide adotar um cachorro. Parece a coisa mais estapafúrdia a se fazer, principalmente para um rapaz que não sabe sequer se cuidar, mas na cabeça dele seria uma forma de ser amado sem que nada fosse esperado em troca, no caso orgulho. A verdade é que, embora acuse os pais por sentirem vergonha dele, o próprio Fieldings não tem um mínimo rastro de auto estima. Gonker e sua alegria esfuziante tentará fazer com que ele se sinta o oposto do que sente, ao menos até desaparecer na floresta. Procura-se Gonker é a reprodução de uma história real por trás desses personagens. 

Procura-se Gonker
Bob Mahoney/Netflix

Stephen Herek é o homem por trás do Bill & Ted original, responsável por inúmeros filmes simbólicos dos anos 1990, mas que parecem ter sido esquecidos lá, tais como Nós Somos os Campeões, Os Três Mosqueteiros (aquele com Kiefer Sutherland e Charlie Sheen), 101 Dálmatas e o indicado ao Oscar Mr. Holland – Adorável Professor, entre muitos outros. Há muitos anos reside em um limbo que consiste em dirigir episódios de séries irrelevantes e filmes de minúsculo porte, como esse. Procura-se Gonker é uma produção inofensiva, que tenta elevar alguns temas como essa especificidade da relação entre pais e filhos muito comum por lá, e também essa necessidade de se mostrar capaz de escolher algo pra vida inteira tão cedo, cuja idade se alarga cada vez mais. 

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No entanto, a extrema leveza do filme o impede de aprofundar tais questões, que deveriam ser debatidas com muita atenção, mas seguem enraizadas em uma cultura que não nota que esse calendário, e continua a cobrar seus jovens por uma resposta, provocando esse tipo de jovem adulto, triste e adoecido. Não há mesmo qualquer vontade de tornar Procura-se Gonker em qualquer coisa além de um veículo para assistir com a família reunida, em uma variação de filmes como Marley & Eu. É lamentável que seja esse o pensamento, quando a produção tem pronta essa discussão sobre amadurecimento e os laços que criamos para evitar males sociais modernos, como a depressão e a falta de amor próprio. 

Procura-se Gonker
Bob Mahoney/Netflix

O mais gostoso de Procura-se Gonker acaba sendo para os cinéfilos com mais de 40 anos, que terão nova oportunidade para encontrar Rob Lowe e reencontrar Kimberly Williams-Paisley, a filha de Steve Martin em O Pai da Noiva. Eles vivem os pais do protagonista e enchem de carisma e talento uma história humana, ainda que desprovida de potencialidades. A personagem de Kimberly inclusive tem uma trama paralela, onde ela se vê criança lidando também com um cachorro de estimação, como seu filho. Esses ecos que também poderiam gerar uma camada maior para a produção, não serve para muito mais que não nos emocionar de maneira igualmente passageira, que é o interesse de cada nova curva da produção. Não consegue (ou não quer) ir além, e a frustração com a ideia apresentada é inevitável.

Um grande momento

Nate chega para ajudar

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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