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Pura Paixão

Os primeiros 28 encontros

(Passion Simple, FRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Danielle Arbid
  • Roteiro: Danielle Arbid
  • Elenco: Laetitia Dosch, Sergei Polunin, Lou-Teymour Thion, Caroline Ducey, Slimane Dazi, Grégoire Colin
  • Duração: 95 minutos

Durante a recém encerrada 46a. Mostra SP, foram conferidos dois filmes franceses que se comunicam diretamente com um tema caro a todos: o que fazer quando você se apaixona, e aquilo é maior do que você imaginava, e tudo parece ser centralizado nessa direção? Impedir a paixão de se transformar em dependência negativa, esse deveria ser um ato de resistência a todos. Se Crônica de uma Relação Passageira e Un Beau Matin lidam de maneiras complexas e diferenciadas sobre isso, esse novo Pura Paixão vem trazer mais um lado à questão, um mais sombrio e dependente, sem notas de leveza que estão na maior parte dos títulos citados acima. É a esse mergulho sem rede de proteção que devemos evitar; não faz bem a nenhuma relação, mas principalmente não faz bem a quem vive. 

(o parágrafo começou tão bem, e terminou clichê; auto-ajuda)

Sem querer dar lição de moral nesses casos, até porque todos nós já vivemos essa coisa avassaladora que nos tira o rumo, que nos faz somente esperar o contato do outro, que nos destrói a existência quando um simples whatsapp não é respondido, dos três títulos colocados em questão, Pura Paixão é o que mais se aproxima de um terreno já conhecido. Quando digo isso, me refiro ao cinema, às questões que o próprio cinema já abordou anteriormente, com desfechos igualmente semelhantes e soluções aproximadas para os conflitos. Não é um problema como as coisas acontecem como aqui, com um certo grau de profundidade na abordagem e com acerto de escolhas narrativas, que aproximam o filme do estado de espírito de sua protagonista. 

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Adaptado de uma obra da recém premiada com o Nobel Annie Ernaux, autora de O Acontecimento, Danielle Arbid nasceu no Líbano, tem mais de 20 anos de carreira, e entregou uma obra decantada pela experiência, como cineasta e como mulher. Não é uma primazia feminina os males provocados pela paixão, e mesmo as reações mostradas em Pura Paixão poderiam ser consideradas exclusivamente femininas. Mas seu olhar para essa mulher específica, que abandona inclusive as obrigações familiares por esse sentimento que mais destrói que constrói, é uma forte exemplificação dos lugares onde não deveríamos seguir. Como diretora, Arbid frequenta aqui lugares de absorção delicada, até de aparência simplória, mas que reverbera um mar de sentimentos a cada plano. 

Pura Paixão
Magali Bragard/Strand Releasing/Netflix

Traduzindo com eficácia a confusa batalha por manter o prumo em meio a uma avalanche que a princípio sempre parece perfeita, Pura Paixão não à toa metaforiza abertamente uma relação toxicômana ao que acontece com Hélène. Em determinado momento, ela diz para Aleksandr: “não me importo em só te ver quando você quiser, ou ficar em segundo plano para sua esposa, ou em esperar…”, e sabemos que isso não dura; a paixão cobra. Tempo, espaço, importância, relevância, presença, entrega. O que ele tem a oferecer é pouco perto do tanto que ela precisa caber, e germinar, e florescer. A partir de determinado momento, tudo o que não vem se transforma em cobrança e posteriormente doença, tristeza e, logo, depressão. Logo, uma espiral de horrores mundanos ocupam espaço. 

Arbid filma tudo isso com sutileza e sinceridade. Há imensa verdade nas elipses que o filme propõe, porque é sobre isso que Pura Paixão está falando, do calor intenso que transborda desse primeiro momento do amor. O filme é feliz em não demonizar nada nem ninguém, muito menos Aleksandr. Seria fácil transformá-lo em um machista insensível, um monstro modificado quando a cegueira passasse. Não digo que não haja espaço para essa leitura, mas ela não está na primeira superfície – homens são machistas, ponto, gays, heteros, de qualquer espécie. Mas tanto Hélène quanto Aleksandr não são pintados com tintas agudas para traduzir cinematograficamente conflitos; é tudo muito mais comum e banal do que costuma se pintar. Esse é o lugar de acerto do filme. 

Quando Hélène é mostrada desfocada de si mesma em reflexos apagados pelas sombras (assim como ele), quando o sexo é priorizado ao diálogo, que só acontece com meia hora de projeção, tudo isso é a forma mais correta de se apresentar os lampejos de um primeiro momento de excitação. Pura Paixão traduz com exatidão essas fases, sendo cumpridas à risca, para passar para a camada seguinte, e seguinte, e seguinte… parece desgastado e cansativo, mas é apenas acertado. Humano deveras. Com Laetitia Dosch (de Jovem Mulher) em nova interpretação hipnotizante, o filme é uma estreia da Netflix dessas que não devem ser passadas em branco, a não ser que você esteja exatamente vivendo alguma das fases de Hélène, e então ou inebriado, ou desarvorado, ou despedaçado. Mas passa, viu? Parece que nunca passará, mas passa. Inclusive o melhor lado… tudo passa. 

Um grande momento

A saia

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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1 Comentário
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Katy Iara
Katy Iara
10/11/2022 08:10

Obrigada pela ótima resenha!

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