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Meu Policial

(My Policeman, GBR, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Michael Grandage
  • Roteiro: Ron Nyswaner
  • Elenco: Gina McKee, Linus Roache, Rupert Everett, Harry Styles, Emma Corrin, David Dawson, Kadiff Kirwan, Emily John, Dora Davis
  • Duração: 113 minutos

Já era 2017, ou seja, há cinco anos atrás (sim, eu disse CINCO anos), quando o Reino Unido começou a extinguir a pena de milhares pessoas condenadas por serem homossexuais ou bissexuais e apenas agora, em 2022, estendeu o “perdão judicial” a toda comunidade LGBTQ condenada por outras atividades sexuais consensuais não previstas anteriormente. Tudo isso aconteceu graças à Lei Allan Turing, batizada em homenagem ao matemático que ajudou a decifrar os códigos nazistas na Segunda Guerra, mas que, homossexual, foi castrado quimicamente e suicidou-se poucos anos depois.

Nos países da coroa britânica, a homossexualidade só deixou de ser crime há muito pouco tempo: na Inglaterra e no País de Gales em 1967, na Escócia em 1980 e na Irlanda do Norte em 1982. A perseguição e a opressão eram constantes, ainda mais porque na “letra fria da lei”, uma norma que nasce em 1534 e se transforma até o início do século 19, o crime era capital, podia levar à pena de morte. Embora a última execução tenha acontecido em 1836, penas atrozes, como a própria castração química, seguiram sendo aplicadas junto com muita humilhação e uso da força. Para sobreviver, os homossexuais britânicos viviam em guetos e chegaram até a criar uma língua própria. 

Emma Corrin, David Dawson e Harry Styles em cena do filme Meu Policial
Parisa Taghizadeh/Amazon Prime Video

Meu Policial, filme de Michael Grandage, diretor de Mestre dos Gênios, volta aos anos 1950 e a essa realidade com a história de amor entre Tom, um policial, e Patrick, um curador de museu. A narrativa é dividida em duas linhas e não é dada de pronto, vem apresentada por uma terceira parte, Marion, uma professora que foi envolvida na relação dos dois. Tudo começa num momento futuro, com os personagens já idosos e aposta nos silêncios e afastamentos que alimentam as dúvidas sobre o que poderia ter acontecido entre eles.

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A frieza desse tempo vai sendo substituída pelas descobertas, ansiedades e interações do passado, onde a juventude e expectativas dão outro tom à história. O roteiro de Ron Nyswaner (indicado ao Oscar por Filadélfia), inspirado no livro de Bethan Roberts, embaralha os acontecimentos criando as conexões necessárias para que personalidades e posturas sejam compreendidas. Grandage tenta marcar isso, com a escolha dos planos e a temperatura da fotografia, e consegue trazer essa ideia de frustração e amargura que paira em boa parte do filme.

Os dois trios de atores também se esforçam para chegar ao mesmo objetivo, embora a irregularidade marque o conjunto das atuações. Enquanto no presente Gina McKee (Um Lugar Chamado Notting Hill) tenha uma participação superlativa e Rupert Everett (O Casamento do Meu Melhor Amigo) apareça bem, Linus Roache (Mandy) não consegue alcançar o tom necessário para dar credibilidade a seu Tom. A situação é bem diferente no passado, com Harry Styles (Não Se Preocupe, Querida), que diferente das expectativas, ainda que não tenha uma participação excepcional, consegue imprimir a confusão e o medo do policial que vive a paixão proibida e está bem acompanhado com David Dawson (O Último Reino). Emma Corrin (The Crown) também se sai bem como Marion, e, talvez junto com o jovem Tom de Styles, seja personagem com mais complexidade na trama.

Rupert Everett e Gina McKee em cena do filme Meu Policial
Parisa Taghizadeh/Amazon Prime Video

Esse desacerto, embora não seja tão grave, se soma a uma superficialidade ao tratar aquilo que é essencial à trama, falhando na contextualização, entrecortando além da conta os momentos com mais potencial dramático e entregando uma concatenação falha na organização da subtrama que une todas aquelas personagens. Enquanto salpica elementos importantes, se demora naquilo que não ultrapassa a função estética, isso sem falar no final apressado e que não consegue ter uma representação em tela daquilo que realmente significa depois de toda a construção feita ao longo de quase duas horas.

Porém, até aí, Meu Policial não deixa de contar uma história dolorida de um amor impossível e faz um retrato do preconceito que, de maneira inacreditável, marcou a história de um país e só foi reconhecido tão recentemente, e um país que sempre se disse liberal e defensor da liberdade. Pior do que isso, ainda é a realidade de vários outros no mundo, e, onde não é mais, há tantas pessoas reacionárias que se sentem autorizadas a interferir na vida de outras, lutando pelo retorno de retrocessos como que excluem, oprimem, destróem e matam.

Um grande momento
O retrato.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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