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Raymond & Ray

Um filme qualquer

(Raymond & Ray , EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Rodrigo García
  • Roteiro: Rodrigo García
  • Elenco: Ethan Hawke, Ewan McGregor, Maribel Verdú, Sophie Okonedo, Vondie Curtis-Hall, Todd Louiso, Oscar Nuñez, Maxim Swinton, Tom Bower
  • Duração: 100 minutos

Rodrigo García, quando apareceu, foi considerado uma revelação. Filho “apenas” de Gabriel García Márquez, o cineasta chegou ganhando a Un Certain Regard, segunda mais importante competição do Festival de Cannes, com sua estreia, Coisas que Você Pode Dizer Só de Olhar para Ela. De lá pra cá, a amizade fidagal com Glenn Close e uma decadência que não parece ter fim, foi só o que lhe restou; o talento, já vai muito longe. Mas a verdade é que ele já fez coisas bem piores que esse Raymond & Ray, que estreou faz pouco tempo na Apple+. Na verdade, esse é um filme que já vimos antes, sobre acerto de contas mediante falecimento, geralmente com desenvolvimento mais aprimorado e melhor apresentado. 

A história encontra os dois meio-irmãos do títulos sendo pegos de surpresa pela morte repentina do pai em comum, precisando viajar para a cerimônia do adeus juntos, sem muitos motivos para fazer tal viagem (que nem é tão longa) por odiar esse homem que acabou de partir. Em cena, Ethan Hawke e Ewan McGregor tentam dar o seu melhor, e ambos têm talento de sobra para dar conta de situações tão prosaicas quanto rasas. Poderia dizer que o filme vale por eles, mas a verdade é que nem eles estão dispostos a ajudar muito, mesmo porque não há material o suficiente para que eles doem algo de seu repertório que seja minimamente satisfatório. Chegamos ao cúmulo de uma mesma cena ser repetida, com os mesmos diálogos e a mesma reação. 

Vondie Curtis-Hall e Ethan Hawke em cena do filme Raymond & Ray
AppleTV+

García nunca foi um esteta. Suas produções avançaram através de um campo naturalista que fazia de seu cinema especial quando seu roteiro permitiu uma discussão mais elaborada do que necessariamente a direção. Foram filmes em sua maioria femininos, e dessa vez ao adentrar o universo masculino como poucas vezes o fez, o cineasta não parece ter muito controle sobre a situação. Ainda que seu filme anterior também não seja bom (Quatro Dias com Ela), ele dá material de sobra para Glenn Close e Mila Kunis brilhar, seja na observação do feminino em si ou no campo dos diálogos, cada vez mais antenado com uma compreensão muito grande do outro. Ao adentrar o mundo dos homens, até isso parece ter se perdido. 

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Não há muito o que ser investigado por trás da narrativa apresentada. Quando os filhos chegam, descobrem que suas terríveis experiências com o pai não refletem o homem que ultimamente ficou conhecido entre os que se relacionavam com ele. Considerado querido, uma pessoa especial, cheio de vida e com uma alegria desconcertante, Raymond e Ray não conheceram esse homem, e são apresentados a esse cara surpreendente. Só que isso não tem nada de novo, e as revelações também são antiquadas, nada representa uma narrativa minimamente interessada no que se conta. Desse jeito, Raymond & Ray escala uma parede de mesmices para justificar sua feitura, e acaba funcionando apenas com o espectador pouco, eu diria pouquíssimo até, exigente. 

Maribel Verdú e Sophie Okonedo em cena do filme Raymond & Ray
AppleTV+

Com alguns erros de continuidade e um roteiro desinteressante, Raymond & Ray tenta criar alguma bossa, como quando acontecem números circenses em meio ao sepultamento, mas mesmo a nova paixão de Raymond é algo protocolar e esperado. A forma como esses dois filhos se relacionam com a memória do pai não suscita nenhuma camada de verdade, parece tudo preguiçoso e pouco inspirado. Um imenso jogo onde contamos o que de verdade nunca foi visto antes; o resultado é quase ínfimo. As participações de Maribel Verdú e Sophie Okonedo não dizem a que veio, e só Vondie Curtis-Hall empresta vigor ao projeto, que amarga um comodismo em todos os lugares para onde olhamos. 

Um grande momento

Ray diante do caixão, no velório

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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