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Vento Selvagem

'Nem tudo é racismo', disseram os racistas

(Wild is the Wind, AFR, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama, Policial
  • Direção: Fabian Medea
  • Roteiro: Fabian Medea
  • Elenco: Mothusi Magano, Frank Rautenbach, Chris Chameleon, Mona Monyane, Nicolus Moitoi, Izel Bezuidenhout, Phoenix Baaitse, Brendon Daniels, Deon Coetzee, Michelle Douglas
  • Duração: 125 minutos

Se tem um filme que poderia ser a foto do verbete “não sou racista, até tenho amigos negros”, é esse Vento Selvagem. Não estou pegando no pé do filme, não por isso; esse é seu lado positivo, na verdade. Ser um retrato contundente dessa sociedade que até é de esquerda, até é inclusiva, até é a favor dos direitos LGBTQIA+, até não suporta ver um ato de violência contra a mulher, “porém…”. É um filme que parece responder a essas pessoas que estão nesse eterno lugar de privilégio, uma redoma tão larga, uma pirâmide tão alta, que não consegue perceber que o mundo girou até pra ela, esse lugar de fala não é dela, nunca foi e agora é chegado um outro tempo. Ainda que, no fim das contas, trata-se exatamente de manter esses privilégios, “porque eu só estou lutando pela minha família”. 

Produzido, escrito e dirigido por Fabian Medea, é a absoluta estreia do rapaz em qualquer função, como longa ou curta. Para alguém que nunca tinha pego uma câmera, aparentemente, o que aparece aqui é bem promissor, ainda que passe longe do bom gosto muitas vezes. É um filme raivoso, sem dúvida – há um senso de justiça em tudo que é dito, mostrado, reverberado, que ultrapassa a tela algumas vezes e chegue até o espectador de maneira muito consciente do que se está fazendo. É uma espécie de lugar de choque, do mundo protegido em que muitos se encontram, para assistir a uma cobrança histórica de muitas dores acumuladas. Não é feito com sutileza, nem é uma preocupação que seja, mesmo assim esse recado é dado como um coice. 

Na tela, uma história se divide em várias dessa produção sul-africana onde um serial killer está correndo paralelo a uma negociação corrupta policial e ao assassinato da sobrinha do prefeito de uma pequena cidade. A princípio, Vento Selvagem nos amedronta em relação a esse acúmulo narrativo, que já prejudicou outras produções recentes da Netflix, como Colisão. Aqui, o roteiro de Medea consegue unir esses assuntos de maneira coesa, com tais camadas se sobrepondo uma à outra com cuidado e sem excessos. Ou seja, narrativamente o filme funciona muito bem, com uma condução de história progressiva e discreta. É o que o filme tem de melhor, além do ritmo adequado conseguido pela montagem de Alastair Orr e Layla Swart. 

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O que atrapalha Vento Selvagem é o tom procurado pela inclusão de trilha sonora, na produção. Na cena onde toca ‘Living in a Box’, por exemplo, é um acerto que não condiz com o restante das escolhas; a música tem um tom debochado que casa à perfeição com a ação da cena, absolutamente cruel. O encerramento do filme com Johnny Cash também é um ponto alto, mas esses dois momentos são exceções. No geral, o filme sofre por não conseguir encontrar um propósito na utilização da trilha, tirando das cenas seu peso ideal e muitas vezes transformando o que estamos vendo em algo inexplicável. Nem chega a ser ridículo ou uma piada, apenas não dá pra entender o que se pretendeu, e o erro crasso de tentar unir duas coisas desconectadas. 

A dramaticidade no geral é exagerada, com pessoas se batendo e se jogando no chão, mas particularmente não vejo problema nesse melodrama rasgado – a cena onde os pais recebem a notícia da morte da filha, inclusive, acho bem crível e bem amarrada. Me parece uma resposta do cinema a um predomínio da teledramaturgia, que é muito forte na África do Sul. Esses arroubos absurdamente dramáticos são oriundos desse tipo de construção de narrativa, e não é um problema que isso seja desenvolvido para esse lado. Mas Vento Selvagem só cresce quando seu lado político fica em primeiro plano, que é o lugar que o filme domina e onde a intenção dele é mais forte. Nesses momentos, o filme cresce e diz a que veio. 

É quando debate essas questões estruturais, de cunha social e que explodem em racismo, que eu nem sei se é exatamente estrutural de tão explícita que são algumas cenas, que Vento Selvagem cresce e se justifica. Ainda que de maneira sensacionalista, o que está em debate na obra de Medea é essa conjectura de sociedade que une brancos e pretos em aparente paz, até que um conflito de ordem que nada se comunica com esse tema (no caso, um rocambole de múltiplos crimes) faz valer o preconceito de sempre, da condenação de um jovem preto apenas por sê-lo até a dissolução de uma amizade, que sempre velou suas intenções. É uma história contada com a certeza de quem vive essa situação e que já sentiu na pele muito do que é colocado em pauta. Nesse sentido, sim, o título de sucesso da Netflix cumpre seu papel. 

Um grande momento

Os amigos explodem, um com o outro

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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6 Comentários
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Cecilia Barroso
Admin
Cecilia Barroso
15/11/2022 03:09
Responder para  FLAVIO DAVID

Poxa, Flavio! Talvez não esteja disponível no catálogo brasileiro ainda. :(

FLAVIO DAVID
FLAVIO DAVID
11/11/2022 15:12

N achei trilha na amazon

Cecilia Barroso
Admin
Cecilia Barroso
08/11/2022 21:27

Oi, Dato!
A música, assim como toda a trilha do filme, está no Amazon Music.

Cecilia Barroso
Admin
Cecilia Barroso
08/11/2022 21:19

Oi, Maria Flávia!
A música que você está falando é a The Man of Yarn, de Terryn Lamb e Paulo Azevedo.

Maria Flávia Horta Barbosa
Maria Flávia Horta Barbosa
07/11/2022 11:45

Estamos pedindo o nome da música do momento 1:03

Dato Rodrigues
Dato Rodrigues
06/11/2022 22:14

A música “ Living in a Box “ , não consigo localizar em aplicativos . Poderia informar ??

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