Crítica | StreamingDestaque

Colisão

Poderia bem mais

(Collision, RSA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Fabien Martorell
  • Roteiro: Edit William Gillin, Fabien Martorell, Sean Cameron Michael, Siphosethu Tshapu
  • Elenco: Langley Kirkwood, Tessa Jubber, Bonko Khosa, Zoey Sneedon, Vuyo Dabula, Mpho Sebeng, Samke Makhoba, Siphesihle Vazi
  • Duração: 99 minutos

Em mais um capítulo da atual dominação sul-africana dentro do catálogo Netflix, Colisão é o mais novo sucesso do streaming, que nem tinha se recuperado ainda de Árvores da Paz – na verdade, ambos estão entre os atuais mais vistos na atualidade, dois sucessos incontestáveis. Esse incentivo à uma produção local que nunca antes tinha sido mensurado pelo parque exibidor de outros lugares é uma forma não apenas de jogar luz sobre uma cinematografia que quer ser descoberta, como um murro nos preconceitos fílmicos. Através dessas produções recentes, constatamos a enorme gama temática a agir por trás dessas produções, a linguagem diferenciada que é aplicada a cada um deles, e a força de um olhar local para tratar de problemas que até são base de sua cadeia social, mas que identificamos facilmente em qualquer outro ponto do mundo. 

O filme é a estreia na direção de longas de ficção de Fabien Martorell, francês radicado em Los Angeles, que tenta ler esse universo distante de si mesmo, e realiza uma produção mais comercial do que a média apresentada. Na verdade, sua moldura coral e sua atenção aos dramas sociais da África do Sul, o apartheid ainda existente dentro de gerações não evoluídas, o preconceito dentro da classe menos abastada aos imigrantes, faz uma massa de composição que nos conecta ao malfadado ‘Crash’, de imediato. Não há, no entanto, o paternalismo vigente aplicado no longa vencedor do Oscar dando as caras por aqui; uma espécie de cartilha cinematográfica está presente, uma espécie de fórmula tradicional para narrar essas premissas divididas em muitas vozes e pilares que se conectarão em efeito dominó – a tal colisão. 

O filme não alivia a barra de ninguém, e joga a culpa em praticamente todos os lados. O amor, como sempre em produções dessa esfera, será a porta de salvação e, ao mesmo tempo, o alvo principal do conflito. A pureza do sentimento será expurgada quando, em confronto com as ideias corrosivas de seus protagonistas, vierem à tona os laços opostos. Com personagens brancos ou negros levando as situações até o limite de suas naturezas, com isso implicando em reações cada vez mais extremadas do lado oposto, o filme se encaminha para o tradicional barril de pólvora imaginado nessas situações descritas. O que não fica bem equalizado é a forma como essa explosão de fúria se dá através de suas camadas; algumas reações são acertadas, enquanto outras parecem obedecer uma ordem superior para que o filme se desenrole, mas sem qualquer organicidade. 

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Esse é um problema que o roteiro de Martorell e Sean Cameron Michael não conseguem fugir de ocupar. Colisão tem uma base sólida de apresentação, mas quando essa base se esfarela (por culpa de uma base posterior, de sustentação), a saída do filme é resolver as questões da maneira mais rasteira possível, e é mais uma vez o roteiro a pagar o pato, com razão. Com uma construção mal desenvolvida, o filme caminha sempre interessando e entretendo, mas deixando à mostra suas fragilidades estruturais. Trata-se, a despeito de um terreno reconhecível, um amontoado de clichês que estamos acostumados a encontrar por aí, mas cujo toque de discussão racista poderia elevar o material, narrativamente falando. Infelizmente acontece o contrário, e a potência do que é dito acaba evidenciando suas outras irregularidades de manutenção. 

O recorte empresarial é o mais bem sucedido, e sua costura muito bem desenvolvida. Johan Greser é um profissional competente, porém corrupto, de uma grande empresa, que espera uma promoção há anos. A recusa em conceder-lhe a vaga em prol de uma nova contratada, negra, desperta nele, branco, o mais preconceituoso lado possível. O filme tem suas melhores cenas ambientadas nesse universo corporativo, onde essas doses repletas de racismo – que nem é apenas estrutural não – estão expostas à serviço da narrativa, dando valor ao que seus personagens representam dentro do modelo narrativo. Essa série de situações envolvendo um dos protagonistas é um modelo do que o filme poderia ter sido como um todo, se o mesmo cuidado fosse dispensado aos seus outros segmentos. Em especial as questões que tratam de imigração são tristes de acompanhar, pelo potencial apresentado e não abarcado. 

Com um elenco que também não apresenta qualquer coisa em especial em cena, Colisão é um filme que não tem qualquer vocação para ser descartável, mas cujos criadores não estão muito focados nessa afirmação. Um produção contemporânea que trata de valores ainda arraigados de sua massa populacional, que poderia enriquecer um debate a respeito da colonização e do que ainda não foi exorcizado internamente, essas intenções são todas de fundo teórico. Na prática, temos aqui uma produção ligeira, sem volume de valores para apresentar, mas que está cumprindo um espaço de mercado cada vez mais evidente. 

Um grande momento
Johan vai até o estacionamento atrás da nova funcionária 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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