Crítica | Streaming

Queen & Slim

Antes do fim do mundo

(Queen & Slim, EUA, CAN, 2019)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Melina Matsoukas
  • Roteiro: James Frey, Lena Waithe
  • Elenco: Daniel Kaluuya, Jodie Turner-Smith, Bokeem Woodbine, Chloë Sevigny, Flea, Sturgill Simpson, Indya Moore, Benito Martinez, Jahi Di'Allo Winston
  • Duração: 132 minutos
  • Nota:

Pessoas negras são mortas todos os dias. Pessoas negras são transformadas em exemplos todos os dias. Por serem negras elas são mortas, apenas por serem negras. O mundo ainda precisa de mais algum George Floyd, de algum Rodney King, de alguma Marielle Franco, de algum Miguel Otávio, de mais quantas Emilys e Rebeccas o mundo precisa? Queen & Slim não é fácil de ser assistido por mim, homem branco, que dirá por pessoas que estão cansadas de se preparar diariamente para sua própria morte, venha ela de onde vier, como é dito no filme. Pessoas negras só querem viver, não virar camiseta nem inspirar futuras gerações com seus sacrifícios.

Melina Matsoukas, diretora multipremiada em videoclipes já lendários como os de Formation e Pretty Hurts de Beyoncé, e We Found Love e S&M de Rihanna, estreia no cinema trazendo toda a bagagem imagética que trouxe do audiovisual que a formou lá sem se deixar deturpar por linguagem publicitária ou vazio narrativo, muito pelo contrário. Através do roteiro de Lena Waithe (a força criativa por trás da série Master of None), a jovem próxima dos 40 anos vem com a habilidade de quem já passeou por essas vias na sua própria trajetória pessoal para radiografar uma história comum devassada por outra história comum; tão comum como um encontro por aplicativo está o fato de um negro ser morto, não é? Infelizmente é.

Queen & Slim

Lena e Melina, ao expor o cansaço diante do que já é uma rotina em acúmulo de tragédias sobre a rotina de ser preto em uma sociedade onde o racismo estrutural atinge a todos (inclusive contrapondo pretos), tem a delicadeza de nunca perder de vista quais são as rédeas de sua narrativa – boy meets girl, e costurar a trajetória errática desse primeiro encontro com as pequenezas suaves que se desenrolam entre qualquer homem e qualquer mulher (ou quaisquer combinação de gênero de pessoas que se conheçam com intenções romântico-sexuais) durante um contato inicial, que escapa da lanchonete onde tal encontro foi marcado para varrer as estradas americanas asfaltadas pela intolerância.

Com um trabalho fotográfico espantoso a cargo de Tat Radcliffe (de 71), o filme se desenvolve através da iminência que é verbalizada no final de que um negro tem medo, constante e de absolutamente qualquer coisa ou pessoa. Trabalhando com essa possibilidade também em acessório dramático, o constante estado de tensão impresso graficamente inclui tomadas que ampliem o espectro de imagem da produção, onde o horizonte é seguidamente um foco do olhar, pois é o horizonte que pode trazer o elemento de conflito à narrativa. Com isso, Melina e Radcliffe imprimem no espectador de qualquer cor, etnia, orientação sexual, idade, nacionalidade ou gênero o estado permanente de apreensão pelo qual os personagens passam no filme e as pessoas pretas passam na vida.

Queen & Slim

O trabalho de Pete Beaudreau (de Beasts of no Nation) na montagem igualmente contribui para essa carga ininterrupta de adrenalina invisível instaurada na narrativa, seja pelo jogo estabelecido entre os protagonistas nesse processo de conhecimento mútuo (e auto conhecimento insuspeito), seja pela carga dramática que a perseguição policial impõe aos personagens. Caminhando em paralelo às suas demandas, o filme nunca deixa de tornar-se relevante pela forma como amarra seu totem narrativo às demandas naturalizadas por negros e negras em seus dia a dia, seja em diálogos frugais (“eu aprendi que não devo interromper uma mulher”) ou em situações-limite (“eu não quero morrer hoje”).

Queen & Slim faz parte de um grupo de filmes tão essenciais quanto não devidamente explorados a tratar da manutenção histórica pelo qual a sociedade precisa encarar para suprir sobrevivência a pessoas negras que ultrapassem a assustadora estimativa de 23 minutos sem morrer. Obras como Ponto Cego, O Que Ficou para Trás, The Last Black Man in San Francisco, O Ódio que Você Semeia e tantos outros não apenas impressionam por suas narrativas vigorosas e suas conduções refrescantes, mas especialmente são roteiros que tentam humildemente reintegrar debates a respeito da manutenção da vida para homens e mulheres pretos.

Ainda que sua duração pareça alongada demais e uma pouco disfarçada “barriga” se faça presente do terço final, Queen & Slim se agiganta a seus micro problemas diante de uma imprescindível realização, estética e narrativa, que surpreende em grande parte das suas curvas moldadas pela tradição do road movie. Em uma dessas rápidas passagens, Angela vê um grupo de condenados trabalhando à beira da rodovia enquanto o carro avança. É o bastante para lembrar da única cena minimamente interessante de Green Book e perceber como, aqui, sem qualquer panfletarismo, a mensagem faz toda a diferença.

Um grande momento
Entre os protestos e o sexo

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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