(Green Book, EUA, 2018) Comédia Direção: Peter Farrelly Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini, Sebastian Maniscalco, Dimiter D. Marinov, Mike Hatton, P.J. Byrne, Joe Cortese Roteiro: Peter Farrelly, Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie Duração: 130 min. Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Os irmãos Peter e Bob Farrelly ganharam projeção mundial em meados da década de 1990 com a comédia Debi & Lóide: Dois Idiotas em Apuros estrelada por Jim Carrey e Jeff Daniels. A história, que girava em torno das aventuras de dois amigos trapalhões, arrecadou centenas de milhares de dólares e até hoje rende muitas risadas. Esse tipo de comédia pastelão dirigida pelos irmãos Farrelly teve vida longa, depois de Debi & Lóide, eles emplacaram: Quem Vai Ficar com Mary?, Eu, Eu Mesmo e Irene, O Amor é Cego, Ligado em Você, entre outras.

Mas em sua segunda investida solo (a primeira vez foi dirigindo três segmentos do filme Para Maiores), o irmão mais velho da dupla, Peter Farrelly, continuou apostando em comédia, mas dessa vez, o tom passa longe dos daqueles filmes que o fizeram famoso. Green Book: O Guia é uma comédia dramática, se podemos dizer dessa forma, baseada numa história real sobre o nascimento da amizade entre o pianista negro Dr. Don Shirley e Tony “Lip” Vallelonga, um segurança valentão de origem italiana, passada em 1962, durante a intensa segregação racial nos EUA.

Don Shirley, interpretado por Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar), é um pianista renomado que vai sair em turnê pelo Sul dos Estados Unidos e que precisa de um motorista para conduzi-lo durante a viagem. Já Tony (Viggo Mortensen), está desempregado desde que a boate onde ele trabalhava foi temporariamente desativada e, por isso, vive de bicos e do dinheiro que aposta em competições de quem come mais cachorros-quentes. Através de indicação, Shirley contrata Tony Lip e é a partir daí que a relação entre os dois, tema central da obra, se desenrola. Importante dizer que o tal Green Book que dá título ao filme era um guia de serviços que indicava lugares que negros poderiam frequentar e se hospedar durante viagens interestaduais. É munida de um guia desses que a dupla inicia sua jornada.

É difícil assistir a Green Book e não lembrar de Conduzindo Miss Daisy, filme de 1989. Só que aqui, a dinâmica das relações é invertida. Se na obra estrelada por Jessica Tandy e Morgan Freeman é uma senhora branca quem contrata os serviços de um negro, nesse longa de Peter Farrelly, é o negro o empregador. Assim como em Conduzindo Miss Daisy, as questões raciais estão presentes em Green Book e seu diretor se utiliza de um humor leve e sutil para evidenciá-las.

Ao longo desta road-trip através do Sul dos Estados Unidos, a relação entre o músico e o motorista começa a se estreitar e, apesar das divergências iniciais, existe uma empatia de ambos com a dor e a dificuldade do outro. Tony Lip, que é o personagem principal da história, é testemunha do desalento vivido pelo pianista, pois o fato de ser convidado a tocar em diversos lugares importantes e de ser reverenciado pela burguesia branca americana, além de ter um doutorado, não concede a Shirley os mesmos privilégios de Tony, como, por exemplo, usar o banheiro da casa. Esse olhar através de uma figura como Tony é algo cativante no filme. Ele deixa de ser alguém que passava ao lado do racismo, para se tornar alguém que se importa.

A amizade entre Dr. Don Shirley e Tony Vallelonga de fato existiu e permaneceu até 2013, ano em que ambos faleceram com poucos meses de diferença. O roteiro de Green Book tem como co-roteirista Nick Vallelonga, filho de Tony. Roteiro esse, que é ponto alto do filme juntamente com as atuações delicadas de Viggo Mortensen e Mahershala Ali. A afinação da dupla faz com que o filme cresça, mesmo sendo essa uma história cujo tema é batido no mundo cinematográfico.

Farrelly acerta no tom e na cadência com que conduz o filme e apesar das polêmicas envolvendo o diretor que assumiu ter mostrado o pênis a Cameron Diaz na época de Quem Vai ficar com Mary?, o filme tem se mostrado um sucesso de crítica em terras americanas. Green Book ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme na categoria Musical ou Comédia e também foi premiado como Melhor Roteiro para Filme e Melhor Ator Coadjuvante em Filmes com Mahershala Ali. O longa-metragem foi indicado a cinco categoria no Oscar (premiação que ocorrerá em 24 de fevereiro): Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Ator (Viggo Mortensen), Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali) e Melhor Edição. Importante ressaltar que Green Book foi o vencedor do prêmio do Sindicato dos Produtores dos EUA, prêmio considerado por alguns como bom indicativo de quem levará a estatueta dourada para casa.

É nas sutilezas de Green Book que mora sua beleza. Peter Farrelly consegue transmitir o recado com muito bom humor, mas sem perder o tom crítico. Ele parece ter decidido despertar no espectador a mesma empatia de Tony Lip com a causa de Don Shirley. E despertar empatia em uma sociedade que, até hoje, promove o racismo e intolerância, sempre é uma boa opção.

Um Grande Momento:
Comendo frango frito.

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