Crítica | FestivalMostra de Tiradentes

Seus Ossos e Seus Olhos

(Seus Ossos e Seus Olhos, BRA, 2019)
Drama
Direção: Caetano Gotardo
Elenco: Caetano Gotardo, Carlos Escher, Malu Galli, Wandré Gouveia, Carlota Joaquina, Vinicius Meloni, Larissa Siqueira, Marina Tranjan
Roteiro: Caetano Gotardo
Duração: 118 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

A arte, o ser humano e as relações humanas, com seus subterfúgios e indisposições, estão por trás de Seus Ossos e Seus Olhos, novo filme de Caetano Gotardo, escolhido para abrir a Mostra Aurora da Mostra de Cinema de Tiradentes. O longa acompanha o cotidiano de João, um diretor de cinema, vivido pelo próprio Gotardo, em encontros e desencontros, em começos e remontagens.

Seu interesse está em vários lugares: o corpo e o consequente ocupar de um espaço, a imagem e suas variadas possibilidades de interpretação, e a memória, como motor de toda a existência. A exposição dos pontos é paulatina. Da primeira cena, com seu “isso eu não consigo fazer”, até o desabafo da amiga, passando por uma ótima sequência de explicitação de inadequação corpo/espaço, não é possível ter ideia de todas as digressões que virão para construir um universo ao mesmo tempo familiar e estranho.

Delicado e dedicado na compreensão das ações humanas e no interessante jogo proporcionado quando existências se encontram, o filme ainda vai mais longe ao transportar todas as dinâmicas para o espectro da arte. É nessa associação que está o melhor de Seus Ossos e Seus Olhos, nessa possibilidade de ver a arte em todos o aspectos do banal e em sua possibilidade de transformar aquilo que é cotidiano. Na tela, estão personagens que se reencenam cotidianamente, repetindo discursos e se apropriam de falas alheias, e há a intervenção do artista na manipulação dessas realidades repetidas. As ligações se fortalecem com essas apropriações, seja no ensaiar de um grupo teatral ou num simples observar de um quadro.

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Passeando entre dimensões narrativas, o diretor se aproxima de coisas já vistas no cinema (mais de uma vez), mas traz uma maneira única de alcançar o real, reforçando essa individualidade que é tão pertinente à vida e à arte. E é o objetivo final de qualquer obra artística, seja o quadro de Almeida Júnior, citado e exposto, ou o próprio filme de Gotardo. Experiências, vivências e desejos possibilitam que uma obra seja várias. E o quanto dessa relação com a arte não está no cotidiano mais trivial? No observar de pequenas coisas ou no ouvir histórias que desejam para si? Essa fusão de arte e vida é muito interessante e encontra no tom casual, corriqueiro das suas sequências o lugar ideal para se estabelecer.

Nesse jogo de identificação, em arte ou em vida, vê-se muito de nós mesmos representados. Seja na roda de conversa, no ensaio ou no tela. As histórias selecionadas para o longa-metragem tocam fundo, se não todas em todos, algumas em muitos. Solidão, decepção, culpa, abandono, saudade, medo e outros tantos sentimentos estão na tela e trazem quem assiste ao filme para dentro dessa construção e reconstrução de histórias.

Porém, se o que se constrói consegue atrair, seja pela identificação ou pela rejeição, há uma ruptura com as várias intermissões pensadas para unir as situações. Além de um excessivo apego à auto-imagem, algumas passagens são longas demais, outras repetitivas, e dispersam o espectador. Mesmo que isso se recupere no quadro seguinte, são soluços que ficam.

Um pouco mais alongado do que seria necessário, justamente pelas pausas, Seus Ossos e Seus Olhos, ainda assim, tem essa capacidade de alcançar o humano, tanto em estrutura quanto em desejo, e deixá-lo tão exposto e tão identificável, trabalhando tudo na chave da arte e mergulhando na compreensão desse jogo que é tão nosso e está em todos os lugares e momentos.

Um Grande Momento:
O desabafo da amiga.

Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

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[22ª Mostra de Tiradentes]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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