Crítica | Outras metragens

Dominique

(Dominique, BRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Guto Barra, Tatiana Issa
  • Roteiro: Guto Barra, Tatiana Issa
  • Duração: 19 minutos

Dominique é um curta de viagens. A viagem da própria Dominique para perto da mãe e a viagem do espectador a um lugar que ele não conhece. E não conhece porque são poucas as abordagens que tratem o tema trans com tanta positividade. Seja na reação da família, na relação das irmãs ou na própria postura da documentada. Mais do que apresentar um universo, o documentário de Tatiana Issa e Guto Barra, com suas duas personagens, faz com que queiramos ficar perto delas.

A direção, ainda que não sempre, atenta para uma construção imagética coerente, muito menos óbvia do que se esperava. A apresentação por palavras, é acompanhada por ângulos posteriores ou laterais, deixando para mostrar o rosto de Dominique em um outro momento; o afastamento gradual, onde se reconhecem o entorno da personagem. Acompanhamos seu trajeto no rio Amazonas, ouvindo palavras de uma vida que não foi fácil, mas que sempre foi encarada de frente. Ela é incisiva e divertida na mesma medida.

Dominique (2019)

O curta-metragem faz um jogo interessante que é o de ir se afastando da parte mais pesada da narração à medida que o barco se aproxima da ilha onde mora a mãe da protagonista, um outro presente para o espectador. Após exprimir uma intimidade encenada e o respeito ao momento no encontro de mãe e filha, em tela está a segurança e o amor, algo que precisa de poucas palavras.

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Issa e Barra dão um outro tom ao documentário a partir de então, inserindo em suas passagens cenas de depoimentos mais tradicionais, em conversas diretas com a câmera. A mudança traz algum ruído à mensagem estética, mas que não consegue superar o carisma de Dominique e sua mãe. A negação e o acolhimento narrados pela própria mãe e o modo como ela se relaciona com uma sociedade preconceituosa e que não entende como alguém poderia lidar bem com três filhas transexuais.

Dominique (2019)

Além da segurança ao lado da mãe, o filme também destaca em imagens e depoimentos pontuais, a importância daquele lugar para Dominique, que foi cedo para São Paulo e voltou para ficar mais perto, que observa a chuva e gosta de sentir seus respingos e que afaga a terra que lhe alimenta. “Eu sou muito paraense”, diz ela antes de se derreter novamente pela mãe. E a gente queria continuar a conversa.

Um grande momento
Se o pai fosse vivo, não ia aceitar.

[48º Festival de Gramado]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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