Crítica | Festival

Triângulo da Tristeza

Vencedor do Textão de Facebook de Ouro

(Triangle of Sadness, RUN, SUE, FRA, ALE, TUR, GRE, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia, Drama
  • Direção: Ruben Östlund
  • Roteiro: Ruben Östlund
  • Elenco: Harris Dickinson, Charlbi Dean, Woody Harrelson, Dolly De Leon, Vicki Berlin, Zlatko Buric, Henrik Dorsin, Carolina Gynning, Arvin Kananian, Sunnyi Melles
  • Duração: 145 minutos

Acredito que exista um problema grave na megalomania, e em como administrar um ego crescente. Digo isso a respeito de Ruben Östlund por dados internos a seus filmes, e externos também. Mas não importa se o cineasta ficou muito triste, desapontado e deprimido por não ter sido indicado ao Oscar por Força Maior (sim, isso é real, com direito a vídeo e tudo do momento da não-indicação), o que importa é o que está dentro de suas obras. Se no citado filme a verve estava muito em dia, e em The Square ele já estava descontrolado mas o filme pedia aquela histeria, esse novo Triângulo da Tristeza soa somente vazio. Mentira, esse filme nem se quisesse conseguiria ser uma coisa só, pro bem e pro mal; na análise de quem escreve, a lista de problemas é infindável. 

De maneira fria, o filme acerta em como entrar no mundo da moda – cirúrgico, um lugar onde o deslumbre só está na passarela, nos bastidores tudo é congelante. Os primeiros 20 minutos de Triângulo da Tristeza são o que ele tem de melhor, porque trata-se dessa passagem, onde os personagens apresentam uma ideia de conveniência moderna que poderia se aplicar a muitas relações em qualquer recorte da História; caímos no universo dos super ricos. Ainda que já exagerado e compreendendo que o descontrole já estava sinalizando em tudo que cerca a produção, essa é uma passagem que estabelece os temas das próximas 2 horas e meia. A partir do momento que chega no navio, o filme entende que não precisa ter mais qualquer laço de lógica ou timidez, e rasga tudo. No mal sentido, lógico. 

Há uma ideia de estar produzindo cinema político de qualidade e relevância, com pautas gratuitas e discussões sociais que entram em cena e se empilham como se não houvesse o amanhã. Mas é tudo tão raso que chega a dar pena; o filme simplesmente absorve essa pequenez de seus personagens e não os julga (nem deveria), mas assume pra si essa mesma personalidade, e rapidamente o filme não tem nada a dizer. Girando em círculos para contar os mesmos dramas envolvendo pessoas que têm valores idênticos, Triângulo da Tristeza é uma piada de mau gosto que não termina em 10 minutos. Compreendo o abraço ao filme, porque ele está constantemente mandando um ‘textão do facebook’ na nossa frente.

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Ainda que possuam personalidade em seus desempenhos, os atores não são ajudados pelo desenho de seus personagens. É um registro de estereótipos em profusão, ninguém parece um ser humano normal, ou melhor, todos estão a disposição de uma cartilha a ser apreciada, ou melhor, preenchida. Nada nem ninguém é orgânico de nenhuma forma; independente da artificialidade não ser um problema central de uma obra – afinal, há obras e mais obras que versam exatamente sobre ela e se vestem dela – Östlund não tem qualquer coisa que remeta a sutileza ou cuidado. E a questão não é puramente estética, mas exatamente na narrativa que começa toda a desgraça. Até existe uma chama provocadora acontecendo por trás disso tudo, mas está soterrada por baixo de quilos de grosseria. 

Triângulo da Tristeza

Quando cito palavras como as do parágrafo acima, podem imaginar que procuro requinte em tudo que eu vejo, e isso não é o caso. Quando Östlund coloca seus coadjuvantes para vomitar por 10 minutos em cena, não consigo me constranger ou enojar; por incrível que pareça, essa deve ser das cenas mais acertadas da produção, onde o exagero faz sentido e é tratado de maneira honesta – além de ser verdadeiramente engraçada, em vários momentos. Meu problema é quando o diretor sueco insiste em um mesmo recurso, por exemplo, que é o de criar um conflito entre personagens, e para sinalizar isso, coloca literalmente arranhões no áudio – um mosquito voando na cena, o choro de uma criança, e outras (aí sim!) porcarias que ele julga extremamente conceitual e charmoso, quando é só redundante e pobre. 

Dono de DUAS inexplicáveis Palmas de Ouro (se a de The Square foi uma agradável surpresa, essa foi uma pedra cantada desnecessária e preguiçosa), Östlund já deixou o sucesso subir à cabeça faz tempo, e Triângulo da Tristeza fala muito mais sobre ele do que imaginamos. Um universo que vibra de egotrip em egotrip, com questões até interessantes que já renderam filmes recentes – todos melhores e mais centrados – mas que aqui só servem para provar um ponto. O diretor, ao final, não parece muito interessado em denunciar bom mocismo de internet, ou tribunal de redes sociais, ou misoginia em relações amorosas; seu interesse é em exterminar cada convenção e cada personagem. 

Não sobra pra nada nem ninguém do elenco contar algo que presta com sua presença. Woody Harrelson tem pouco a fazer com o papel que lhe foi entregue, a moça que está fazendo de tudo pra ser indicada ao Oscar Dolly De Leon está bem, mas sua personagem é péssima, um poço de clichês disfarçados de salvadora social. Talvez o jovem Harris Dickinson (de Ratos de Praia) parece estar mais à vontade, mas nada é muito intenso ou importante. A terceira parte do filme, inclusive que é dominada por De Leon, é a mais constrangedora de Triângulo da Tristeza. Sem dúvida isso será comparado coisas como Relatos Selvagens, quando na verdade é só irritante e mal escrito e transforma um “filme” em um arremedo de novela dos anos 80, tipo A Gata Comeu ou Guerra dos Sexos, sem qualquer laço de qualidade que sobravam em Ivani Ribeiro e Sílvio de Abreu. 

Triângulo da Tristeza acaba se mostrando falho na maioria das coisas que se propõe, mas que com certeza terá seu público pela bandeira que carrega; é fácil comprar sua briga, seu discurso. Difícil é reconhecer que, sozinho, nenhum tema transforma um filme. Que o talento volte a Östlund, porque sabemos que existe algo ali, mas com DUAS Palmas de Ouro, vai ser difícil recobrar a humildade.

Um grande momento
A discussão no restaurante, que vai parar no elevador

[46ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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