Crítica | Streaming

Rosalina

Pelos olhos da ex

(Rosaline, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Karen Maine
  • Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber
  • Elenco: Kaitlyn Dever, Isabela Merced, Sean Teale, Kyle Allen, Spencer Stevenson, Bradley Whitford, Christopher McDonald, Minnie Driver, Nico Hiraga
  • Duração: 95 minutos

“Romeu e Julieta” é a peça mais famosa de todos os tempos que conta a história de amor mais famosa do mundo. Ela já rendeu um sem número de versões, adaptações e influenciou um monte de gente. Pode-se até dizer que tem uma grande parcela de culpa nessa ilusão do amor romântico que segue firme e forte por entre gerações. No cinema, a obra-prima de William Shakespeare já apareceu de várias maneiras: em adaptações mais fiéis, como no filme de Franco Zefirelli; um pouco mais contextualizadas, com Baz Luhrmann, ou completamente modernizadas, como no recente R#J, de Carey Williams. Também serviu de base para outros tantos títulos, como o musical Amor, Sublime Amor ou na animação Gnomeu e Julieta, isso sem considerar as histórias que seguem a mesma estrutura para falar de amores impossíveis.

Fato é que a história do casal de adolescentes que se apaixona perdidamente, mas não pode ficar junto porque suas famílias se odeiam todo mundo conhece. De trás para frente e de frente para trás. E como seria ver tudo isso de perto, com uma perspectiva diferente? Bom, é o que faz o longa Rosalina, dirigido por Karen Maine e com roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber. Na verdade, a história parte de uma personagem existente na trama do bardo, mas que antes não tinha espaço na trama além de citações. Vocês lembram que Romeu era apaixonado por outra garota antes de conhecer Julieta? — Pausa aqui para uma breve refrescada na memória: O mocinho da peça é um rapaz “emocionado” que, logo no começo, revela estar deprimido por esse amor não-correspondido por Rosalina, prima de Julieta. Inclusive, a ida ao baile de máscaras dos Capuletos tem a ver com esse amor. Lá ele se apaixona perdidamente de novo. Fim da pausa. — Pois então, aqui é essa pessoa que acompanha todo esse caso de amor e, mais do que isso, vai dar a sua versão e tem a sua própria história para contar.

A ideia de aproveitar a personagem Rosalina e desenvolver um fio narrativo a partir dela surge bem antes do filme, com o livro de Rebecca Serle “When You Were Mine”, que serve como base para o roteiro, mas, ainda bem, tem muito de seu conteúdo ignorado e completamente abandonado. Baseado na disputa entre as duas primas e bastante machista, o texto de antes se atualiza para ir às telas, transformando-se numa fábula divertida, com outras preocupações que não perde a agilidade. Julieta não é uma traíra horrorosa que coleciona homens e, muito menos, Rosalina, uma pobre coitada que foi impedida de viver o amor de sua vida. Ela é uma jovem que quer decidir a própria vida, rejeita a ideia de um casamento arranjado e não aguenta mais os muitos encontros

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Kaitlyn Dever, a Amy de Fora de Série, vive a carismática protagonista e vive dentro do mesmo padrão estabelecido para os personagens da conhecida peça. Além dos encontros às escondidas no balcão com o apaixonado Romeu, no começo do filme, ela tem como principal cúmplice sua ama de companhia, a enfermeira Janet, vivida por Minnie Driver (de Gênio Indomável). É muito divertido ver as apaixonadas declarações que já conhecemos e sabemos que eram destinadas para outra pessoa, e acompanhar a luta constante de Rosalina por seus direitos, fugindo dos avanços do pai que quer casá-la de todo jeito porque ela, com seus 20 e poucos anos já está “velha demais”.

O humor, aliás, é a tônica do filme que se divide entre essas duas histórias — a conhecida e a desconhecida — criando algumas intersecções que misturam elementos novos do roteiro àqueles já sedimentados na memória do público. Impossível não se divertir com o encontro das duas primas ou com o sofrimento pelo abandono da protagonista depois que ela descobre que Romeu está realmente apaixonado ao som de “All By Myself”. Ao mesmo tempo, é curioso acompanhar o desenvolvimento daquele tão famoso amor por alguém que está vendo tudo por um outro ângulo, caçoando das repetições, explicitando sua fragilidade e, impondo em seus atos, a análise que o passar do tempo trouxe e obviamente infuencia em um texto de mais de 450 anos.

Com sua agilidade, fluidez, jovialidade e tendo a seu favor essa familiaridade com o ambiente e os personagens, Rosalina conquista o público. Mesmo tendo os seus toques importantes, não vai ser nada muito profundo, mas vai valer cada segundo na frente da televisão.

Um grande momento
“All By Myself”

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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