Crítica | Festival

R#J

(R#J, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Carey Williams
  • Roteiro: Rickie Castaneda, Oleksii Sobolev, Carey Williams
  • Elenco: Camaron Engels, Francesca Noel, RJ Cyler, Diego Tinoco, Russell Hornsby, Siddiq Saunderson
  • Duração: 91 minutos

Em 2015, estreava no palco do Public Theater a peça Hamilton. Com muito hip-hop, Lin-Manuel Miranda adaptou a biografia do primeiro ministro da fazenda dos Estados Unidos. Uma ousadia, sem dúvida, mas que deu tão certo que hoje está na Broadway, é um dos musicais de maior sucesso da atualidade e está disponível no Disney+. Trazer o hip hop para a origem da História americana, e fazer uma montagem exclusivamente com atores não-brancos é uma posição política. Com um cenário por tanto tempo dominado por imagens e modelos eurocêntricos, é importante que a cultura afro-americana e latina tome espaço e conte suas histórias com a sua cara. R#J faz isso com um clássico absoluto.

O primeiro longa de Carey Williams é mais uma versão da mais famosa história do trágico amor romântico entre dois adolescentes de famílias rivais escrita por William Shakespeare em 1591. Adaptado de todas as maneiras possíveis e imagináveis (até mesmo gnomos de jardim já viveram os conhecidos personagens), “Romeu e Julieta” chega agora ultramodernizado às telas, usando como linguagem as novas telas. Snaps — ou stories, como ficaram conhecidos agora — são os responsáveis por apresentar os personagens, videochamadas por facetime estabelecem os diálogos e muito da apresentação dos backgrounds vêm por passeios por perfis em redes sociais.

O roteiro a seis mãos, assinado pelo diretor e por Rickie Castaneda e Oleksii Sobolev faz um contraste interessante ao manter muito do texto. As declarações de Romeu, um romântico inveterado, por videochamadas causam um deslocamento curioso, algo que já não acontece quando as brigas são transmitidas por lives pela possibilidade e infeliz adequação com a realidade. O choque entre o real e o improvável faz bem ao filme. Se peca é quando se perde desse conversar diretamente com a trama. Quando, por exemplo, vai explicar o que está por trás da briga entre os Capulet e os Montague.

Porém, o filme consegue retornar bem à trama dos dois amantes. Tem suas falhas e alguma falta de crença na própria potência, mas R#J tem muitos pontos interessantes. O modo como se apropria da linguagem publicitária, cheia de filtros, tão comum nas redes sociais; como encontra um novo caminho para a simultaneidade; e como centraliza sua trama mais do que funcional é bom.

Vale também analisar que o revigorar da trama não está apenas na forma, há uma atualização na postura do casal, algo que reflete essa juventude das mídias, para a qual a visibilidade está diretamente associada à felicidade. R#J é, sem dúvida, uma experiência interessante por tudo o que abarca: o retrato de uma juventude, uma nova linguagem e a nova forma de olhar para um clássico, dando a ele características que realmente o insiram em uma outra realidade e não apenas siga estereótipos como em 1961.

Um grande momento
Julieta na festa

[SXSW 2021 – Film Festival]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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