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O Enfermeiro da Noite

(The Good Nurse, EUA, 2022)
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Tobias Lindholm
  • Roteiro: Krysty Wilson-Cairns
  • Elenco: Eddie Redmayne, Jessica Chastain, Myra Lucretia Taylor, Noah Emmerich, Nnamdi Asomugha
  • Duração: 121 minutos

O momento do Código Azul em um hospital – quando alguém entra em parada cardiorrespiratória – é um momento tenso, com gritos, correria no corredor, chegada de máquinas e muita gente, ajustes de cama, massagem cardíaca e choque com desfibrilador. Pelo menos é assim que estamos acostumados a ver nas muitas séries médicas que existem por aí. O Enfermeiro da Noite já começa com um Código Azul, e acompanha os mesmos procedimentos, mas a abordagem que o diretor Tobias Lindholm dá ao momento é outra. Sua câmera não mostra o paciente, ou a equipe trabalhando para salvar aquela vida, o foco está em alguém que acompanha tudo de perto, de maneira bizarra, sem participar da ação. Vamos nos aproximando daquela figura estranhamente, num zoom que tem um tempo incongruente com o ritmo da ação que está fora do plano, assim como a própria reação do personagem. 

O tal homem é Charlie Cullen, o Anjo da Morte, um dos maiores assassinos em série dos Estados Unidos. Enfermeiro, ele confessou cerca de 40 assassinatos às autoridades de Nova Jersey, mas acredita-se que ele tenha matado mais de 400 pessoas durante 16 anos. Com um sistema falho, onde não havia controle das contratações e a imagem dos hospitais era mais importante do que a investigação dos ocorridos, os crimes iam se multiplicando sem registro pelo estado, até que uma colega, Amy Loughren, o convenceu a confessar o que tinha feito. O longa, nesse momento de boom de produções que ficcionalizam e, de certo modo, romantizam a vida de assassinos seriais, tenta imprimir a personalidade do assassino em sua forma. 

O Enfermeiro da Noite
JoJo Whilden/Netflix

Lindholm, que roteirizou os dramas Druk, A Caça, e dirigiu a trilogia R, Sequestro e Guerra, além de dois episódios da série Mindhunter, volta mais uma vez ao estudo de personagem. Contando a história de um conhecido serial killer, há tensão, mas não em grandes momentos ou revelações. O suspense de O Enfermeiro da Noite, está em outro lugar, sua força não tem a ver exatamente com as mortes, ou mesmo com a investigação, ele está ligada à construção da relação entre Charlie e Amy, principalmente à medida em que a identidade de um vai se cristalizando para a outra. As contradições entre as duas personas é uma das forças do longa, que coloca os dois personagens em polos tão distintos e, ao mesmo tempo, complementares para dividir o espaço e conduzir a história.

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Eddie Redmayne e Jessica Chastain estão bem nos papéis, em atuações cheias de detalhes. Ele não tão diferente de lugares já visitados antes, em outras interpretações, mas com alguns momentos de brilho; e ela transformada em uma mulher com muitas limitações, que carrega pesos, frustrações e medos transformados em olhares e posturas. O Enfermeiro da Noite, é um daqueles filmes que dá tempo para que suas figuras se revelem, se compreendam, se confirmem. E deixa que a empatia – ou antipatia – se dê de forma muito natural em seu tempo alongado e pouco afeito a surpresas e armadilhas. 

O Enfermeiro da Noite
JoJo Whilden/Netflix

É fato que talvez a coisa desande um pouco depois que a obviedade se apresenta, na terça parte final do longa. Era preciso que algo acontecesse de mais efetiva, e isso se cumpre, mas assim que uma nova dinâmica se estabelece entre Amy e os policiais Tim Braum (Noah Emmerich) e Danny Baldwin (Nnamdi Asomugha), com pontos e opções que destoam das até então adotadas, há um certo desequilíbrio e um prolongamento desnecessário, mas nada que invalide a experiência, em especial quando se considera o cinema de indivíduo e, mais, a obra em meio a essa onda de filmes e séries sobre a mesma temática. 

Pois, por trás de tudo, em outro contraponto, está a incongruência de forma e conteúdo, na observação que apresenta, de longe, o monstro e na monstruosidade chocante que se revela depois. É uma escolha curiosa do diretor quando se pensa na facilidade de Cullen em assumir turnos em novos hospitais, se aproximar dos pacientes e na impunidade que o ajudou a matar tantas pessoas. Essa identidade irreconhecível, quieta e, por vezes, acolhedora, é, sabemos, a de muitos outros psicopatas e assassinos em série. Lindholm arrisca ao fazer da característica o andamento e abordagem, imprimindo na própria trama o distanciamento e a frieza daquele que observa. Podia ter dado muito errado, mas funciona. 

Um grande momento
Sozinha com as crianças

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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