Crítica | Festival

Rodson ou (Onde o Sol não tem Dó)

Só os fracos têm vez

(Rodson ou (Onde o Sol Não Tem Dó), BRA, 2020)

  • Gênero: Ficção
  • Direção: Cleyton Xavier, Clara Chroma e Orlok Sombra
  • Roteiro: Cleyton Xavier e Urutau M. Pinto
  • Elenco: Orlok Sombra, S.brxxzkjxkzxkxkz, Nirá Link, Gadi Bergamota, Lyna Lurex, Tina Reinstrings, Melindra Lindra, Sabiá Pensativo, Rodolfo Keoma
  • Duração: 74 minutos
  • Nota:

Confesso, nunca tinha ouvido falar no coletivo Chorumex, grupo cearense que visa difundir uma espécie de cena experimental amadora de cinema e que já conta inclusive com um evento pra chamar de seu, o Festival do Chorume, onde obras de quilate parecido com as que o grupo produz circulam para descobridores e apreciadores. Ao conhecer seu longa metragem na competição da Olhos Livres em Tiradentes 2021, ‘Rodson ou (Onde o Sol não tem Dó)’, o espectador é arremessado a um cinema que não apareceu recentemente e que já conta com um grupo de seguidores e difusores, artisticamente falando, tais como Gurcius Gewdner (‘Pazucus’) e Peter Baiestorf (‘O Monstro Legume do Espaço’). 

Dirigido pelo trio Clara Chroma, Cleyton Xavier e Orlok Sombra, o petardo acessa em diferentes tipos de público, diferentes tipos de reação, o que não garantirá uma fácil apreciação. Entenda: de teor marginal, proposta de risco em realização e narrativa, o coletivo não têm medo de não agradar, descendo às profundezas do radicalismo em todas as frentes. O que provavelmente não agradará a todos não passa de um produto muito sedutor também por não fazer concessões, se permitindo ofender, desagradar e incomodar, e quanto mais arriscada são suas metas, mais o filme parece avançar. 

Passado o estranhamento inicial diante dos excessos (não apenas de informação, como principalmente de tom – ‘Rodson…’ não tem medo de ser agudo, até procura por isso), a produção vai sendo assimilada e absorvida com as mesmas chaves que apresentei no texto de ‘Pietà’. Fora do panteão hegemônico que rege a apreciação cinematográfica e se apregoou colocar em totens intocáveis, existe uma próxima historicidade sendo escrita, pedindo passagem e exibindo seus valores em lugares alternativos que não apenas aos que se atribuem valor analítico; Tiradentes há alguns anos tenta sanar dívidas com a marginália artística. 

Enquanto coletivo, o Chorumex cria sua própria narrativa de demolição – eles recusam códigos que regeriam uma construção narrativa clássica, e puxam a responsabilidade de moldar uma nova costura. Também imageticamente, não se deixam abater pela adversidade ao abraçá-las e celebrá-las, vivendo no fio da navalha entre nutrir paixão por sua cria e auto ironizar seus feitos, criando a única blindagem possível ao marcar um alvo nas próprias costas. Tanto por isso tudo, acabam por construir um misto de paródia, ‘new chanchada’ para demolir mitos canônicos das cartilhas de cinema, e um arriscado mergulho radical para amplificar vozes dissonantes a um cinema de bom gosto. 

Ao mesmo tempo em que tudo parece uma festa, de convite irrestrito a qualquer espectador que se propuser uma lufada de criatividade em cima do lixo, desconstruindo suas noções do que é aceitável em tela; para o trio de diretores, tudo é possível e tudo merece ser tratado, avaliado e compartilhado. Com o advento do YouTube como mola propulsora de cineastas ultra independentes e com sede de realizar um cinema de guerrilha, produtoras como a Chorumex ampliam seus domínios para além da mostragem simplificada; ‘Rodson…’ está concorrendo na Mostra Olhos Livres, em iguais condições com outros cinco títulos. 

Em meio a uma distopia trash que se arrasta até o ano 5000, seu protagonista perambula com um robô/amigo/influenciador chamado Caleb – nome de origem bíblica com significado geralmente atribuído a ‘cachorro’, e nas origens cristãs, o personagem tinha sido um espião para a Terra Prometida; nenhuma dos dois significados deve ser ignorados. A saga dos personagens por uma terra dizimada, com encontros cada vez mais surreais com tipos igualmente surreais, com seus efeitos especiais toscos, são o triunfo de uma realização que acredita na criação de novos dogmas imagéticos, e propõe deliberar sobre eles.

Ainda que pouco depois da metade da projeção o filme demonstre sinais de cansaço, perdendo ritmo e partindo para desdobramentos desinteressantes até em sua proposta, ‘Rodson ou (Onde o Sol não tem Dó)’ é uma resposta incisiva e muito divertida das áreas onde o politicamente correto narrativo não tem vez e essa liberdade tomada pra si representa uma renovação não apenas para o cinema em larga escala como também para os independentes, tendo em vista que eles são o início da ‘cadeia alimentar’ fílmica; em algum momento, o cânone abraçará valores que Clara, Cleyton e Orlok ajudaram a difundir, com sua porralouquice desenfreada. 

Um grande momento:

A briga de mãe e filho por Caleb.

[24ª Mostra de Cinema de Tiradentes]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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