Crítica | Festival

A Mesma Parte de um Homem

(A Mesma Parte de Um Homem, BRA, 2021)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Ana Johann
  • Roteiro: Ana Johann, Alana Rodrigues
  • Elenco: Clarissa Kiste, Laís Cristina, Irandhir Santos, Otavio Linhares, Zeca Cenovicz
  • Duração: 99 minutos
  • Nota:

“Era só pra você sumir”. No lugar do pai de família bronco, abusivo, um homem desmemoriado e carinhoso, querendo reaver a rotina. Na vida de uma mãe e uma filha que lutam contra a violência esse é um baque surdo demais e a premissa apaixonante de A Mesma Parte de um Homem.

Produção paranaense, dirigida por Ana Johann e contando com uma performance espetacular de Clarisse Kiste como Renata, a mãe e logo chefe de família, além da menina e do estranho – vivido pelo sempre magistral Irandhir Santos – o clima de desencanto do filme é exacerbado pelo trabalho de elenco e de direção, evocando esperança num gozo urgente e sofrido.

As duas reparam a solitude, enterram rastros de dor pretérita – representada no pai “espantalho” vestido com a camisa do defunto ou nos hábitos do cão do dono – para prosseguir a vida calejada e apática. Luana (Lais Cristina) parece homem das cavernas, mata galinha a sangue frio e não sabe conversar à mesa. Enquanto isso Renata vai se reconectando com seu desejo, materializando tanta vida represada nas interações com o corpo de Luís.

Deslumbrado, o visitante traz uma vibração meio Sommersby (um filme dos anos 90 onde Richard Gere chega sem memória até a soleira da porta de Jodie Foster) atirando Renata e Luana para fora de seus mundinhos fechados e poeirentas. Em contraposição, ele também manifesta rompantes de machismos adormecidos. Elas notam e a gramática audiovisual traduz: os planos detalhados nos rostos delas, nas expressões, na mão que mexe a roupa meio sem jeito, nos atos de cozinhar ou caçar, comunica demais o que se passa na mente confusa delas.

O roteiro que Ana Johann e Alana Rodrigues assinam constrói o clima de paz e de distúrbio, numa dança suave nesse Sul fantasmagórico em seus rincões onde as duas seguem mantendo a encenação não por medo, mas sim por fascínio ou costume de respeitar o patriarcado.

“Isso aqui é nosso
Ele não é nosso”

A ruptura ou acordar do devaneio familiar se dá numa aceleração rítmica da trama, que, ao cair da noite, ganha uma conotação de thriller e um desfecho aquietante. Um lugar onde mãe e filha se reconciliam com suas naturezas indomadas e seguem a estrada.

Um grande momento:

O reconhecimento no espelho do banheiro.

[24ª Mostra de Cinema de Tiradentes]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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