Crítica | Festival

Rosa Vênus

(Rosa Vênus, BRA, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Marcela Morê
  • Roteiro: Marcela Morê, Marcela Mara
  • Duração: 76 minutos
  • Nota:

Um mês, duas Marcelas. Marcela Morê, a cineasta e Marcela a atriz-performer Amarcél (nomenclatura artística de Marcela Mara). A primeira dirige, fotografa e monta as encenações e os registros feitos durante um mês por várias localidades mexicanas. A segunda, representa e interage, nesse Rosa Vênus que é tanto um filme experimental – bebendo um pouco no nicho do cinema de fluxo – quanto um improviso imagético que captura um pouco do universo feminino com alma latino-americana.

Como em Laura (2011, de Fellipe Gamarano Barbosa) a narrativa se desenrola a partir das vivências da atriz que conduz, vive e introjeta o dispositivo. Mas aqui, Morê deixa aparente sua cumplicidade com Amarcél e da combustão artística entre as duas amigas surge um filme epistolar, delicado, Mekasiano, uma jornada para dentro e para fora.

Rosa Vênus

México, Rio de Janeiro e Minas Gerais são linhas no mapa e pontos percorridos por Marcela sob o olhar (seja com a câmera na mão ou na seleção de certos frames e detalhes na ilha de edição) de Marcela. Com uma mis-en-scène que uma fã nonsense sonhou, a melancolia e a felicidade dos dois vulcões enamorados da lenda asteca se entrelaçam na sinuosidade dos movimentos de Marcela, dançando numa praça pública sob o sol.

Fácil evocar também Elena (2012, Petra Costa) mas o tempo diegético e a estrutura são maleáveis e menos marcados por um off que tudo exprime.
A trilha, composta por Zózimo, marido da Marcela-atriz, traz temas mexicanos se transmutando no som direto, nas canções e folguedos captados durante a viagem das duas ou em intervenções posteriores em estúdio. Fluido dentro do universo mítico do país de Frida Kahlo, Rosa Vênus espia as vivências de mulheres a partir de duas mulheres vivenciando uma outra cultura, língua e maneiras de se entender mulher na sociedade.

Rosa Vênus

Com 90% das imagens captadas e utilizadas no corte final obtidas em território mexicano, Rosa Vênus se balança entre imaginários diuturnos, contemporâneos, tradicionais e sobrenaturais, com uma paleta calorenta, solar e que também mimetiza os furta-cores dos céus no centro das Américas, enquanto Amarcél declama poemas exprimidos. Ela, à medida em que se confunde com a paisagem, se traduz em sensações e dizeres não ditos pelos olhares daquelas que a olham de volta.

Morê faz evocações poéticas do cinema ensaio do cotidiano, como Chris Marker e Varda já tanto o fizeram. Porém, aqui servem como arcabouço para materializar a presença cênica, o corpo de Marcela nas andanças pelo México, nos cômodos da sua casa ou pela cidadezinha no interior das Minas Gerais onde foi criança.

Traduzindo audiovisualmente uma amostra da “anima”, da mulher que joga em cena, Rosa Vênus risca mais o já há muito borrado limite entre gêneros no cinema narrativo. Nele, estilos e possibilidades de reinvenção estão em diálogo com o instinto artístico das Marcelas não para gerar um construto fílmico dadaísta mas sim uma potente visão do útero que pulsa nas Américas e em suas mulheres tão cheias de sombra, de luz e de beleza.

Um grande momento
Danças de guerreiros para sonhar.

[1º As Amazonas do Cinema]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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