Crítica | Outras metragens

Being Dead Should Be Easy

Deslocada até o fim

(Being Dead Should Be Easy, EUA, 2025)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Claire Harris Matson, Drew Brandon Jones
  • Roteiro: Claire Harris Matson
  • Elenco: Olivia Macklin, Maggie Wheeler, Alan Barinholtz, Kevin Dorff, Caroline Brauner, Grant Rivers, Cassandra Bodzak
  • Duração: 15 minutos

A morte, em muitas culturas, é o ponto final, e em Being Dead Should Be Easy, de Claire Harris Matson e Drew Brandon Jones, ela ganha ares de competição, de um novo índice para medir quem conseguiu suprir as expectativas familiares. Janie, uma millennial perdida – difícil achar um que não seja –, descobre que está atrasada para definir o lugar onde ficará o seu corpo. O detalhe burocrático, que poderia soar apenas como um imprevisto prático, escancara algo muito mais incômodo, já que por “sua culpa”, até na morte, ela parece não ter um lugar.

O curta faz da situação absurda um retrato de uma geração que cresceu sob o peso de comparações e fracassos anunciados. Enquanto os parentes exibem segurança sobre seus destinos pós-vida, ela encara o rótulo, e o sentimento, de estar atrasada não só na vida, mas também na morte. O humor ácido nasce dessa contradição, de como um ritual solene se transforma em uma crise íntima, revelando a vulnerabilidade de quem nunca consegue corresponder ao que é esperado.

Matson e Jones olham de maneira interessante para esse deslocamento. A câmera observa a protagonista cercada por tradições, parentes e certezas que não lhe interessam. Os diálogos rápidos, por vezes cheios de constrangimento, destacam o que está em jogo, transformando a vida em checklist, e onde até o descanso final precisa ser planejado. O absurdo, aqui, não é exagero, mas reflexo de um cotidiano em que o pertencimento é sempre negado ou adiado.

O riso fácil não elimina o desconforto. Ao contrário, o reforça. Há algo de cruel em perceber que a exclusão persiste mesmo em situações em que deveria haver apenas acolhimento. O filme, nesse ponto, usa o humor como disfarce para um incômodo mais profundo, o da solidão de uma geração que lida com a precariedade afetiva e existencial, como quem tropeça nos móveis de uma casa onde nunca foi convidada a entrar.

Em Being Dead Should Be Easy, a dificuldade nunca esteve na morte, mas em viver em um mundo onde o existir está condicionado a corresponder ao que esperam de você. Longe de ser alívio, rir da desgraça, aqui, é a constatação amarga de que, para alguns, nem o fim garante paz.

Um grande momento
Era o último lugar

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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