Crítica | Streaming

Mank

Retrato de todos os tempos

(Mank, EUA, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: David Fincher
  • Roteiro: Jack Fincher
  • Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins,Tom Pelphrey, Arliss Howard, Tuppence Middleton, Joseph Cross, Sam Troughton, Toby Leonard Moore, Tom Burke
  • Duração: 131 minutos
  • Nota:

Reproduzir Cidadão Kane não é uma tarefa que alguém decida fazer impunemente ou sem a certeza de um fracasso retumbante só por ousar tentar. Orson Welles concebeu o tão propalado ‘melhor filme de todos os tempos’ debaixo de impressionante pressão, e ainda assim conseguiu extrair da experiência uma obra que se recusa envelhecer. Ainda bem que David Fincher não parece muito interessado em reviver algo tão único na História do Cinema, e faz de seu Mank uma biografia com o espírito do seu autor, ou seja, um filme para se assistir com afinco, porém sem exigência ou lupa, mas repleto de admiração por um período, e tentando aproximar o passado do presente, em reflexo incisivo.

O que o diretor de A Rede Social faz, mais uma vez, é tentar radiografar uma existência, um tempo, uma personagem, com o máximo em acuidade possível. Nesse ponto, exatamente Herman Mankiewicz e Mark Zuckerberg são colocados em lugares muito semelhantes, e talvez sejam retratos de suas ´epocas mesmo, em suas particulares obsessões. Ao se ater a dois homens que moldaram seus períodos, cada um a seu modo e deixando uma marca indelével no mundo que os representou, Fincher observa suas próprias características sendo pintadas por seus “cavalos”, e ele consegue assim exorcizar demônios seus com personas outrem.

Gary Odman em Mank

Com delicadeza, Fincher acaba desenhando através dessas obras um entendimento profundo sobre esses períodos históricos, os anos 1930 e os anos 2000, sagrando em cada um dos filmes a atmosfera que cada tempo respirava. Se na saga do criador da rede social mais usada da História vemos uma agilidade e uma melancolia atreladas ao universo que foi criado a partir da chegada do Facebook, em Mank não existe o tempo hoje, e com isso não é uma típica tarefa de homenagear a “velha Hollywood” que se banca, mas a ideia de reproduzir um tempo de rivalidade histórica o suficiente para destruir vidas – vejam só, um reflexo reproduzido por Zuckerberg e sua criação, palco do separatismo social que vivemos hoje.

Uma das molas do filme é uma investigação em torno de criação de notícias falsas com fins eleitoreiros observadas no chocar do ovo, que devasta os personagens em sua narrativa (onde viveram homens reais, é sempre bom lembrar); algo nos recorda do que acontece agora? Mank é muito claro em sua mensagem, em seus meandros políticos, em como trata as relações humanas de maneira absolutamente parcial, pela visão entorpecida do próprio Mank. Sua incapacidade de estabelecer laços que não pudessem ser devassados pela corrupção, cometida pelo seu entorno ou por ele mesmo, desfila os interesses escusos que sutilmente existem em qualquer grupo de relações.

Gary Odman em Mank

Tudo em Mank é agigantado, da estrutura narrativa que tenta passear pela falta de linearidade vista na obra símbolo de Welles até o campo físico, com cenários construídos em escala monumental, até na reprodução imagética do trabalho, que evoca o cinema de outrora pela fotografia estonteante do estreante em cinema Erik Messerschmidt (que vem da série de Fincher, Manhunt) e os “pequenos defeitos” de película acrescidos ao filme, um caso raro de entrega às possibilidades de imagem de uma obra – mas não ao se tratar de um autor como Fincher, meticuloso e perfeccionista. O elenco também não escapa ao volume máximo, com um grupo grande de pessoas vivendo lendas da construção do cinema, onde todos têm momento, do magnetismo de Gary Oldman à entrega de Arliss Howard, passando pelas delicadas construções de Amanda Seyfried e Tom Burke, é um time de brilho.

O toque final é a interpessoalidade que corre por Mank, uma saga pessoal e particular ao mesmo tempo que reflexiva de outrora em larga escala, concebida em esquema tão grandiloquente quanto também íntimo. Escrito por Fincher pai, Jack, sendo esse o único texto deixado para seu filho filmar, e deixar um texto tão abrasivo e com todas as características que fizeram das obras de Fincher filho trabalhos tão singulares em suas propostas narrativas e em seus diálogos que complexificam o todo, Mank é uma obra que analisa presente e passado, tendo consciência do quanto do hoje sempre houve no ontem. E não só em Hollywood.

Um grande momento
Mank e Marion sob a árvore

Ver “Mank” na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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