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Me Leve para Algum Lugar Legal

Uma mulher nova

(Take Me Somewhere Nice, NED, BIH, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Ena Sendijarevic
  • Roteiro: Ena Sendijarevic
  • Elenco: Sara Luna Zoric, Lazar Dragojevic, Ernad Prnjavorac, Sanja Buric, Jasna Djuricic
  • Duração: 91 minutos

O sentimento de pertencimento não é fácil de se construir, principalmente quando você ainda é muito jovem, e se vê tendo de lidar com a impetuosidade da própria adolescência (ou o fim dela) e um estado de deslocamento geográfico – você não é um adulto ainda e já não é mais criança, você é natural de um país mas suas origens estão em outro. A ebulição de um período observada sem o olhar viciado que o cinema tantas vezes já provocou é um ponto-chave para Me Leve para Algum Lugar Legal, estreia na direção de longas da bósnia Ena Sendijarevic premiado em Rotterdam, que leva sua discussão para um lado menos direto do tradicional.

Paternidade. Pátria. Duas palavras de morfologia aproximada e que no filme são traduzidas de forma consonante. É o que falta a Alma, encontrar as respostas certas para as perguntas que ela ainda está elaborando. Porque conhecer um pai/país que nunca a abraçou, a tomou para si e a reconheceu? A juventude nos turva a visão em relação ao que é de fato crucial, e a protagonista segue seu coming of age de maneira disruptiva. Ela quer romper com o que tem e encontrar no que ainda não chegou essa fagulha que lhe falta, e que a afasta dos demais. Se nada disso é claro pra ela, o filme também deixa o espectador em uma busca saudável.

Me Leve para um Lugar Legal
© Emo Weemhoff

Indo de um país a outro em busca de conhecer o pai que a abandonou ainda criança, essa é a narrativa concreta de Alma e do filme. Por trás dessa certeza, só existem dúvidas escondidas e uma tentativa inconsciente de desprendimento absoluto. Não criar laço, não absorver empaticamente as relações que se formam ao seu redor, não contemplar o outro com genuína entrega emocional – até o vazio que rege alguma juventude é construído no automático do nosso tempo. Não há conteúdo no que se cria, apenas uma ideia pré-concebida do que seriam relações humanas, mas por trás dessa superfície necessária, jaz a inoperância.

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Seguindo o ritmo do cinema de fluxo (ainda chamam assim?; é toda semana os mesmos movimentos sendo incansavelmente rebatizados, mas sendo basicamente a resolução da mesma ideia), Me Leve para Algum Lugar Legal flagra uma cineasta de apenas 34 anos cujo descontentamento promoveu uma visão inusitada para um argumento longe da originalidade. Seu olhar enxuto parece coadunar o modus operandi com sua protagonista, ao revelar uma personagem pragmática e resoluta em suas ações, longe do que foi ministrado durante anos pelo cinema a respeito do feminino. Sendijarenic parece não ter tempo para correr atrás dos mesmos estereótipos de sempre, então os abole dentre de uma esfera mais do que conhecida para dar luz a uma nova figura.

Me Leve para Algum Lugar Legal
© Emo Weemhoff

O ser que Alma é, criado, modulado e interpretado, é um novo sujeito político no cinema não apenas por ser mulher, mas por recusar-se sem didatismo a seguir as cartilhas do que é vigente no audiovisual para o ser feminino. Nessa seara inclusive cabe desconcertar o espectador em determinado momento, onde já terá sido apreendido sua mola propulsora, com a chegada enfim de um rasgo de delicadeza e “meninice”, ao incorporar uma Dorothy moderna – com direito ao seu próprio Totó. Sem mudança de registro, a subversão em cena é tão milimétrica que se permite subverter até a sua própria criação.

A longa sequência final não vem pra fornecer assertividade a esse novo esboço de heroína. Sendo coerente a si mesmo em quebrar a expectativa forjada pelo que o espectador foi educado a ler, cada novo movimento de Alma desdiz o anterior, seguindo uma métrica muito particular de construção de personagem – a absoluta anarquia, para dela surgir coerência em meio ao caos. A grande mensagem (olha que coisa careta a um filme que literalmente ri desses conceitos) que Me Leve para Algum Lugar Legal transmite, em suas camadas de corrupção, é a que empatia não precisa ser assimilada como um dado particular, mas se isso for transmitido, ao menos, já é um passo.

Um grande momento
No balanço

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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