Crítica | Festival

A Suspeita

Em busca da memória

(A Suspeita, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Pedro Peregrino
  • Roteiro: Newton Cannito, Thiago Dottori, Luiz Eduardo Soares
  • Elenco: Glória Pires, Galba Gogóia, Gustavo Machado, Genésio de Barros, Charles Fricks, Paulo Vespúcio, Joelson Medeiros, Julia Gorman, Kizi Vaz
  • Duração: 120 minutos

Em 2013, Lúcia, uma policial civil prestes a se aposentar, escreve para si mesma no futuro. “Para que a minha memória sobreviva”. O longa A Suspeita, de Pedro Peregrino em sua estreia no cinema depois de dirigir novelas como Boogie Oogie, Órfãos da Terra e Éramos Seis, apresenta aos poucos essa personagem, primeiro olhando em parte para ela e depois a colocando em um lugar de deslocamento, onde ela não quer entrar. Lúcia é o branco que não se sente confortável com as cores, o velho que não orna com o novo.

O afastamento tem lugar de destaque no filme e define a protagonista, defendida com dedicação pela atriz global Glória Pires (de Se Eu Fosse Você), além de influenciar também na estética. Na maior parte do tempo, há uma barreira, ou falta luz, ou foco, ou ela está de costas para a câmera. A outra chave é a da memória, destacada quase de maneira insistente.

A Suspeita
© Desirée do Valle

Esse é o lado mais interessante de A Suspeita, embora tratado de maneira evidente demais. É curioso como Peregrino faz com que a memória esteja sempre de certa forma afastando-se de Lúcia e, em citações, ela queira sempre agarrá-la. Da importância da lembrança e daquela que se deixa para o futuro à caixinha de madeira ou à porta errada, há um longo caminho pelo rememorar e pelo sentir-se neste mundo. São detalhes pequenos, que só farão sentido depois no filme, mas que são fundamentais para o estar viva e ativa em seu caso. 

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E o filme ainda universaliza essa memória, quando fala da relação da sociedade brasileira com o Brasil, um país que obviamente tem problemas em lembrar o passado e em enxergar o seu presente. “Existe um submundo que os nossos olhos não veem, mas que destroem o nosso mundo, que destroem a nossa cidadania.”

A Suspeita
© Desirée do Valle

É isso, Suspeita consegue se desenvolver a contento na trama pessoal de Lúcia e isso confere traços interessantes à trama. Porém, o thriller policial deixa bastante a desejar, há muita facilidade e uma previsibilidade que fazem mal à história da corrupção policial no Rio de Janeiro descoberta por acaso e que vai acabar no mesmo lugar de sempre, com os mesmo vilões, o mesmo final e aquela influenciazinha já esperada.

Ainda assim, percebe-se a dedicação na construção de clima e de tensão; os movimentos de câmera, uso de música grave e planos inventivos são funcionais. Peregrino consegue criar um suspense, e este era o principal objetivo de A Suspeita, que deve, sim, fazer sucesso com o público. Entreter vai.

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[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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