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Você Deveria Ter Partido

Masculinidade na berlinda

(You Should Have Left, EUA, GBR, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: David Koepp
  • Roteiro: David Koepp
  • Elenco: Kevin Bacon, Amanda Seyfried, Avery Tiiu Essex
  • Duração: 93 minutos

David Koepp é um roteirista excepcional, já entregou diversos produtos tantos de consumo rápido quanto mais sofisticados, sempre realizados com capricho, que vão desde clássicos como Jurassic Park e O Pagamento Final até primores como Guerra dos Mundos e A Morte lhe Cai Bem, e que há muito também foi para trás das câmeras em produções menores, mas igualmente criativas. Vindo do ponto mais baixo de sua carreira (Mortdecai), esse novo Você Deveria ter Partido o recoloca no jogo da sua especialidade, o thriller de suspense, com alguma eficiência, ainda que seja um filme cujo desperdício salte aos olhos.

Espécie de continuação espiritual de Ecos do Além, seu encontro anterior com Kevin Bacon, são muitas as conexões entre eles e também Janela Secreta, outro suspense de Koepp, estrelado do Johnny Depp, o que cria uma unidade na obra do autor entre seus protagonistas atormentados pelo passado, por resquícios de insanidade recônditos que começam a ganhar espaço, mas especificamente reflete nessas três produções para tratar esse homem despedaçado pelo trágico que precisa sobreviver a si. Uma trilogia informal sobre o homem branco desprovido de sanidade mas arraigado em trazer problemas pra quem o rodeia, e para segurança de todos, se afasta.

Você Deveria Ter Partido
Foto: Reprodução

Em 2021, é praticamente impossível assistir um filme como esse e não observar a toxicidade do macho contemporâneo, que não apenas destrói o que está ao seu entorno como também a si mesmo. O roteiro discute isso nas entrelinhas e cada vez mais abertamente, até explodir na tela de maneira bem explícita. Theo é um homem com um passado, e seu contato com tal herança é trazida à tona pela sua memória, refletida em sua filha pequena, que começa a ter pesadelos parecidos com os do pai, mostrando que nossa violência intrínseca atinge todos que nos rodeiam, ainda que não a realizemos; se ela está em nós de alguma forma, isso virá à tona.

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Infelizmente Você Deveria ter Partido perde oportunidade de aprofundar os aspectos psicológicos de seu protagonistas, o que reverberaria no conteúdo do próprio filme. Excessivamente ciumento, controlador e com uma relação ambígua tanto com sua esposa quanto com sua história, Theo é um belo personagem, com um desenho pronto para um desenvolvimento pleno, mas que cede às pressões do cinema de gênero e acaba se tornando plano, diminuindo a força de sua narrativa e rendendo menos do que poderia, com as próprias ferramentas que o filme serve, em nome de uma leitura do terror com força inferior.

Você Deveria Ter Partido
Foto: Reprodução

É o caso de uma produção cuja dramaturgia apresentava um material superior ao que é fornecido de material imagético de gênero, que é restrito ao jump scare vazio e repetitivo, ainda que bem realizado. Em contrapartida, o que deveria ser o real ponto de interesse da produção é levado para escanteio. Tanto Bacon quanto Amanda Seyfried (recém indicada ao Oscar por Mank) e a pequena Avery Essex constituem um núcleo muito crível, e sustentam as reviravoltas em sua base dramática, enquanto o filme não consegue se realizar no gênero que ambiciona; é esse elenco muito conciso que ampara a produção até o final.

Esteticamente, Você Deveria ter Partido tem cenas muito interessantes como quando a casa de férias se transforma em um pesadelo labiríntico, com direito a uma cena muito boa entre Bacon e um lance de escadas aparentemente eterno, mas nada que faça o espectador ser chacoalhado. É uma produção competente, com uma ideia narrativa acima da média, que vê seu resultado se conformar no lugar de sempre, e aí se configurar decepcionante. Ainda assim, uma prova de que seu autor se recoloca no mercado de maneira competitiva e segue como um operário padrão que eventualmente se eleva.

Um grande momento
“Porque tanta gente odeia o papai?”

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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