Crítica | Streaming

Secreto e Proibido

(A Secret Love, EUA, 2020)
Documentário
Direção: Chris Bolan
Roteiro: Chris Bolan, Brendan Mason, Alexa L. Fogel
Duração:81 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆
Onde ver: Netflix

O título para A Secret Love de Chris Bolan – Secreto e Proibido – tira o caráter humano e emocional, até psicológico, de uma história que é profunda e essencialmente humana. Até trata, sim, do seu cerne histórico que traduziu tanto o seu período no desenrolar, mas, desde o início, o diretor deixa claro sua predileção por conhecer Terry e Pat muito mais do que fazer um tratado político de sua relação. Ou melhor, ao observar o mais sincero sentimento nascido entre duas mulheres nos anos 1940 e seu desvelo até os dias de hoje, fazer a partir daí o melhor e mais pungente tipo de política possível, aquela cujo aspecto pessoal e particular afeta o público. É o micro influenciando e desdobrando os aspectos do macro.

Terry e Pat nunca foram ativistas, muito pelo contrário. Sempre tiveram medo de revelar ao mundo uma relação de 65 anos por temer o desamor. Com duas histórias de vida de origens diferentes, ambas tinham em comum o fato de viverem o fantasma do preconceito e da homofobia dentro da própria casa, logo, seus medos tinham fundamento. Foi em cima dessas certezas que cresceram tanto sua relação íntima quanto à forma como se relacionavam com a sociedade – sempre às escondidas, temendo a certeza da intolerância. Mas Secreto e Proibido não tenta abranger a história do casal até essa seara, esperada. É o mundo interno de ambas que interessa ao filme, no que se define como a melhor escolha.

Terry Donahue e Pat Henschel no documentário Secreto e Proibido (A Secret Love, 2020)

A discussão narrativa que o filme apresenta não é só emocional, como também corajosa. Há uma proposta de debate que antagonizaria personagens e que há princípio parecem motivados por ciúme. Conforme avança, Bolan descortina a natureza das ligações interfamiliares, como cada uma das protagonistas se situa em relação aos entes de sangue da outra, e percebemos que, naturalmente, naquela estrutura há um amor profundo, um carinho incomensurável, mas também há um senso de proteção que soa como egoísmo para a outra parte interessada. Falta comunicação, e o filme chega a testemunhar ao menos uma cena de conflito que só complexifica ainda mais essa história de amor.

Como se trata de um filme protagonizado por duas mulheres de mais de 60 anos, não é de estranhar que o amor, o preconceito e as relações familiares se encontrem com um outro assunto: o tempo. Em determinado momento, passando de carro, Terry diz “queria muito andar nisso”, se tratava de um desses diciclos modernos e elétricos, e a essa frase se segue o silêncio. Caminhando para os 90 anos, Terry e Pat não estão rejuvenescendo e a produção não foge do tema. Com locomoção comprometida e conflitos entre si que permanecem em suspenso, o casal tem uma visão diferente sobre o futuro possível. E qual o futuro possível para um casal de octogenárias que só agora experimenta a liberdade total e irrestrita?

Terry Donahue e Pat Henschel no documentário Secreto e Proibido (A Secret Love, 2020)

Curioso constatar, pela segunda vez na mesma semana, o envolvimento de Jason Blum (da Blumhouse) em outra iniciativa bem distante da sua zona de conforto. Depois de Lowriders, Blum mais uma vez está entre os responsáveis de um projeto que em nada se aproxima do conceito de “cinema direto” no qual ele fez fama. Ao lado de Ryan Murphy (responsável por Hollywood, Glee, Feud e outros sucessos da TV), eles entregam um documentário que se apropria de códigos comuns do formato e os recicla pela chave da sensibilidade. Recusando o panfleto e o sentimentalismo, Secreto e Proibido investiga o que de extraordinário existe no que deveria ser mundano. Uma história de amor, acima de tudo.

Utilizando os inúmeros materiais fotográficos e videográficos com os quais a família de Terry registrou sua própria história, o diretor recheia as memórias de duas mulheres repletas de idiossincrasias ligadas pelo imenso amor que as uniu durante toda a vida. Um sentimento tão intenso que as fez vencer obstáculos dentro das próprias famílias de sangue e criar uma família por opção tão conectada quanto. Percorrendo uma etapa melancólica da vida, Bolan ainda abre um olhar muito franco sobre a velhice e a necessidade de se reinventar até nas etapas mais cruciais da vida, com seriedade, comprometimento, mas sem jamais perder de vista a história de amor que conta.

Um Grande Momento:
Crise em família.

Ver na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo