Crítica | Streaming

Segurança

O brilho dos talentos individuais

(Security, ITA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Peter Chelsom
  • Roteiro: Peter Chelsom, Amina Grenci, Tinker Lindsay, Michele Pellegrini
  • Elenco: Maya Sansa, Fabrizio Bentivoglio, Valeria Bilello, Marco D'Amore, Beatrice Grannò, Ludovica Martino, Silvio Muccino, Giulio Pranno, Tommaso Ragno, Doris von Thury, Antonio Zavatteri
  • Duração: 118 minutos

Ainda que sua atenção seja rapidamente capturada por Segurança, produção italiana caprichada que chega hoje a Netflix, o verniz inicial assistido durante a primeira meia hora começa a perder fôlego à medida que sua trama se revela, engorda e perde o interesse gradualmente. Se o interesse é mantido até o final, isso é graças ao gênero que se propõe; o suspense criminal e de luta por poder é tradicionalmente envolvente e impregna os sentidos do espectador. Enquanto o público se mantém entretido pelos plots e pela resolução dos problemas, o filme se complexifica das maneiras erradas, afastando o interesse até só restar o automático.

É esse automático que nos faz manter a empolgação diante de um projeto com tão pouca personalidade. Dirigido pelo britânico Peter Chelsom (um burocrata faz-tudo que já foi de Escrito nas Estrelas a Hannah Montana), essa decisão sozinha já mostra como o filme é um longa de produção, sem tentativas maiores que apenas entreter. Apesar disso, é uma produção que prima por uma certa elegância de sua arte, que sem ostentação, obtém resultados significativos na retratação de uma moral burguesa egoísta, que subutiliza suas relações a título de conseguir avançar na pirâmide humana, e alcançar os objetivos particulares sem pensar em ninguém.

Segurança (2021)

Passada essa sedução inicial que vende esse jogo político à beira-mar como um microcosmos das relações de mesmo interesse em todos os cantos do mundo, sejam eles cantinhos ou cantões, o filme acaba por revelar cedo demais suas deficiências, ou melhor, seu cansaço estrutural. Por trás da trama envolvendo a eleição municipal de um balneário italiano, seus conchavos e alianças espúrias, uma subtrama acaba se sobressaindo a outra, embora todas sejam genéricas em graus diferentes. Jovens que se relacionam sexualmente com professores, casamentos falidos não terminados por conveniência, velhos tarados que se valem de suas deformidades para tentar justificar seu show de horrores, adolescentes envolvidos com drogas e sexo por baixo da casca social, tem de tudo na tela onde a condução até se esforça para não tornar o programa enfadonho.

Adaptado da novela de Stephen Amidon por Chelsom e Amina Grenci, Segurança se apresenta como um material diferenciado dentro do catálogo da Netflix, que teria força dramática para perdurar com o espectador por mais tempo graças a um esforço inicial, mas acaba se desenhando o mesmo cansaço que a carreira de Chelsom apresenta normalmente, com raros momentos de brilho esparsos dentro de seus produtos. Típico autor de aluguel, ele entra em um projeto estrangeiro para deixar sua falta de identidade na tela, que acaba até sendo benéfico quando o projeto só quer te entreter por 2 horas antes que passe para um longa verdadeiramente relevante.

Segurança (2021)

O elenco, apesar de tudo, é recheado de talentos italianos de primeira linha, como Maya Sansa (de Bom Dia, Noite), Silvio Muccino (de Manual do Amor), Tommaso Ragno (de Lazzaro Felice), o protagonista Marco D’Amore (da série Gomorra) e o maior de todos, o veterano Fabrizio Bentivoglio, que acaba de vencer o David di Donatello por A Incrível História da Ilha das Rosas, e aqui delimita o resto do elenco com um sarrafo alto. Também dono do personagem mais intrigante da produção, Bentivoglio brilha como o milionário que não pode sentir o toque humano, e em nome disso perde a razão. Seu trabalho é o toque de classe de uma produção que nem procurava por tal, mas que encontra em seu talento um detalhamento especial.

É esse grupo de pessoas que acaba por tornar a sessão de Segurança algo minimamente aprazível. Os talentos individuais fazendo valer a experiência coletiva também é algo comum no cinema de Chelsom, que acaba sendo beneficiado por já ter trabalhado com astros e estrelas de grandeza expressiva, que valorizam seu trabalho costumeiramente sem brilho. Aqui, fica o suspense meia bomba de sempre, cercado de momentos especiais aqui e ali.

Um grande momento
“Essa é uma história de inverno”

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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