Crítica | FestivalMostra SP

Sem Ressentimentos

Gente do futuro

(Futur Drei, ALE, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Faraz Shariat
  • Roteiro: Faraz Shariat, Paulina Lorenz, Jan Künemund
  • Elenco: Benny Radjaipour, Banafshe Hourmazdi, Eidin Jalali, Knut Berger, Niels Bormann, Katarina Gaub, Hadi Khanjanpour, Vanessa Loibl, Paul Lux
  • Duração: 92 minutos
  • Nota:

O diretor Faraz Shariat tem exatamente as mesmas características do seu protagonista Parvis, em Sem Ressentimentos: muito jovem, alemão de nascimento mas de descendência direta iraniana, elabora em seu primeiro longa uma reflexão sobre a imigração, não apenas aquela formal geográfica, mas também a que extrapola os limites do corpo. Seu trio de personagens centrais experimenta novas formas de não-pertencimento espacial, porque não se sentem à vontade não apenas com os lugares onde vivem, mas com as decisões que precisam tomar e o futuro, que os escapa das mãos e que tenta estabelecê-los num passado arcaico.

Aos 26 anos, Shariat já vive a inadequação na pele desde que nasceu, e convida seus tipos a experimentar de angústias que extrapolam o espaço físico. De assumida temática LGBTQI+, essa é uma narrativa que nunca exaure. Os motivos são vistos todos os dias na quantidades de crimes cometidos por homofobia, e que silenciam vozes que só querem amar e ser amadas; quando um filme pela enésima vez aborda as questões que essa fatia da sociedade enfrenta diariamente, é como um novo alerta social para impedir novas formas de genocíio em minorias oprimidas e que precisam criar empatia à sua situação.

Sem Ressentimento, filme selecionado para a 44ª Mostra

Ainda que o recorte sobre o que tematiza esteja em um lugar já visto anteriormente em produções similares, esse é um daqueles casos onde o tempero redefine o olhar. O filme acompanha a aproximação do já citado Parvis a um casal de irmãos, Benafshe e Amon, três iranianos vivendo na Alemanha em perspectivas diferentes. Enquanto o primeiro já se radicou, inclusive já voltou ao Irã ao longo da vida, os irmãos estão tentando a regularização de sua situação de refugiados na Europa; se conhecem então num centro jovem onde o primeiro paga dívidas sociais. E partem para aquela dinâmica conhecida de repulsa e atração, e posteriormente esconder o que sentem uns pelos outros.

A dinâmica dos personagens não é novidade. São jovens que prezam a liberdade, essa característica vem bem a calhar ao universo dos imigrantes atuais, e se convergem pela exclusão do alheio – todos os afastam, eles não se reconhecem em ninguém, seu destino é se refletir mutuamente. A aproximação não é tão facilitada porque Amon esconde sua atração, mas esconde pouco, o envolvimento tem menos neuras do que geralmente se filma em lugares semelhantes. Ainda assim, há aquelas retração mediante o público externo, que se dissipa conforme a paixão aflora; ou seja, a fórmula clássica.

Sem Ressentimento, filme selecionado para a 44ª Mostra

O que salta as olhos no filme não é somente essa paixão evidente do qual o filme não foge. Ainda que aborde esse sentimento da maneira quente esperada, Sem Ressentimentos se diferencia por também não fugir de um carinho muito genuíno que nasce entre seu casal. Se os beijos são ardentes, o toque se equilibra na ternura; se a ebulição entre ambos é inevitável, também o é íntimo o ambiente que brota entre os dois. Suas motivações têm vazão juvenil, da descoberta do primeiro amor (ainda Parvis não se negue ao prazer carnal de ocasião, e o filme também desnuda isso com normalidade), mas também tem muita certeza de seus passos.

A cereja do bolo no longa de Shariat é não tratar seus personagens de maneira mitificada, ou estereotipada. Suas motivações até podem ser recorrentes ao usual, mas suas personalidades amplamente contraditórias – o Parvis que repele um homem que intervém ele com xenofobia, não resiste em se dobrar a Amon; o Amon que é enrustido também é o mesmo que se incomoda de transar escondido – dão um molho crível a seus desenhos, e os humaniza. Aliados aos sonhos e desejos de Bena, o filme monta um painel cheio de afeto sobre uma juventude que tem consciência de sua modernidade, mas que não consegue fugir às doutrinações do passado.

Sem Ressentimento, filme selecionado para a 44ª Mostra

Dando a mesma importância às questões de gênero e ao olhar para a imigração e seus motivos, narrando uma família tradicional vencida pelo amor que os une, Sem Ressentimentos conta com uma bela interpretação de Eidin Jalali em uma estreia impressionante, captando cada nuance de seu complexo Amon. Isso tudo move pra frente um filme cujo frescor está implícito, escondido nas entrelinhas mas que pode ser identificado por subjetiva sensibilidade.

Um grande momento
Toques antes do ato

[44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo