Crítica | FestivalMostra SP

Cracolândia

Quis custodiet ipsos custodes?

(Cracolândia, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Edu Felistoque
  • Roteiro: Heni Ozi Cukier
  • Duração: 87 minutos
  • Nota:

Quem vigia os vigilantes? A frase, por um tempo atribuída a Platão e depois descoberta a autoria por pesquisadores linguistas de Oxford como sendo do poeta romano Juvenal, é a premissa de “Watchmen” – de Alan Moore e Dave Gibbons que talvez seja a obra pop de arte sequencial mais influente do século 20 – e em resumo, está inquirido sobre quem responsabiliza o poder. Escrita em 1988, os quadrinhos tratam de uma sociedade corrompida, onde a degeneração está em curso seja por meio da onda de criminalidade crescente ou pela alta circulação de drogas e o domínio dos meios de produção pelos bilionários sem alma. Em meados dos anos 1980, no centro de São Paulo, no quadrilátero entre a Helvétia, a Alameda Dino Bueno, parte da avenida Ipiranga e da Duque de Caxias, surge a Cracolândia. Um microcosmos que se baseia na praça Princesa Isabel e onde hoje chegam a circular 3000 pessoas por dia. Um lugar abandonado pelo poder público, onde o coração das trevas se engrandece, tendo como alimento a doença, o desespero e a solidão.

Com direção de Edu Felistoque, roteirizado e conduzido pelo cientista político Heni Ozi Cukier, Cracolândia – o documentário – vai sustentando seu discurso a partir de uma imersão um tanto quanto distanciada naquele lugar que tanto desgaste causa a gestores da cidade e moradores do entorno. Utilizando talking heads com especialistas em segurança pública, alguns psiquiatras, comerciantes, assistentes sociais e outros cientistas políticos como Maurício Fiote, o documentário parece promissor ao tentar, a partir do conflito já estabelecido, radiografar o que existe, o que já foi feito e o que há de se ter como esperança para que a Cracolândia deixe de existir. Seria a retirada dos moradores/viciados? Seria uma política de uso controlado?

Trazendo a perspectiva de outras sociedades sobre a dependência química e como as políticas públicas ajudaram a sanar o problema, o documentário tem eventualmente seu eixo deslocado de São Paulo para a Noruega, EUA ou mesmo a Suíça. O país dos Alpes e do chocolate já teve em Zurique a capital da heroína, com locais como o Parque das Agulhas chegando a abrigar 5 mil usuários por dia nos anos 1990. Em Los Angeles, os mais de 50 quarteirões da região conhecida como Skid Row já foram absorvidos não só na paisagem como na rotina dos que lá vivem; o que é possível fazer é distribuir kits médicos para os moradores de rua e ajudá-los quando tem alguma overdose. Nessa sequência, Cracolândia se sai bem ao demonstrar com dados e cases que existe um abismo. Porque entre a parada total, a caça de usuários e a derrubada das barracas como tem feito o governo Dória na Cracolândia, a “open scene drugs” explicita como é fundamental haver vontade política em se buscar soluções a médio e longo prazo. Até pelo fato de, como relata um pesquisador da Universidade de São Paulo, o crack ser um droga estimulante e não relaxante, como é o caso da heroína. Como colocar centenas de pessoas num local para ter uso controlado de uma droga que os deixa agitados?

E sobre o como implica em uma das digressões desse documentário, que seja utilizando imagens de drones ou takes por detrás da barreira da tropa de choque, meio que cosmetiza a miséria. “Além da dependência, eles estão lidando com muita dor”. E não estão sendo aqui representados como pessoas. A edição inclusive monta algumas entrevistas, como a do militante da ONG Craco Resiste, para tendenciosamente polarizar a narrativa. E aí entram falas de ex-secretário de segurança, juíza criticando a operação Braços Abertos da gestão do Hadad, diretor do sindicato dos comerciantes do bairro reclamando que eles vivem cerceados e com medo dos usuários que vivem promovendo assaltos pra comprar a pedra.

Mesmo que fosse uma matéria jornalística e não um filme, ainda assim configuraria um equívoco polarizar dessa forma, ainda mais sobre um tema tão cheio de meandros que não apela para formulações fáceis como este o faz como por exemplo, traz um plano aéreo mostrando o “fluxo” da Cracolândia, a feira na praça onde se amontoam mais de 30 barracas onde o crack é vendido e consumido. A tomada influi medo, naquele lugar onde pessoas se tornaram vítimas dos delírios e da compulsão por um breve momento de torpor e escape.

Lá para as tantas, após muitas imagens gravadas para o filme e outras de arquivo sobre as várias tentativas da polícia em “limpar a área”, devolver a dignidade e civilizar a região dos campos Elíseos soa dicotômico mostrar o Crime e o Castigo num segmento onde também aponta que punir com o encarceramento não é a solução mas sim buscar alternativas, como os tribunais de drogas foram institucionalizados nos EUA; ou a polícia de tolerância zero com usuários de drogas e pequenos traficantes em Nova York.

Cracolândia, documentário selecionado para a 44ª MostraSP

“Dependência química é doença mas quem trafica e lucra tem que ser processado”, pontua Cukier. E como eliminar esse problema sem desafiar as estruturas de poder, o crime organizado e as milícias, que são retroalimentados pelas elites? Se na Cracolândia circula 17 milhões por mês, 180 milhões ao ano, quem tem a culpa? Quem lucra? Sem a anuência do ente público, não existe tráfico.

Em meio a muita distorção, falta de humanidade e até de respeito num enviesamento ideológico que denota certa insensibilidade em abordar a Cracolândia como um organismo enfermo, sim, mas composto por vidas, o documentário traz alguns momentos de lucidez, como a conclusão de uma psiquiatra de que não é possível eliminar as pequenas aglomerações de usuários já que muitos saem de casa por se sentirem acolhidos nas ruas por outros que passam o mesmo; que também por isso não é da noite pro dia nem como num passe de mágica que se extermina a Cracolândia. “Não existe estratégia vencedora. Você não elimina o problema mas lida da melhor maneira possível”, fala o coordenador de um centro de uso controlado em Estocolmo.

Assinando como pesquisador, roteirista e personagem-condutor do documentário, Heni Ozi Cukier acabou enveredando pela política, colocando seu projeto político antidrogas em execução no estado de São Paulo e se elegendo deputado pelo Novo. A Cineasta e antropóloga Maíra Bühler fez um movimento semelhante ao realizar Diz A Ela que Me Viu Chorar – eleito melhor filme no Olhar de Cinema 2019 – e se deter na rotina de usuários de crack integrantes de um programa de redução de danos na mesma cidade. Também branca, também cheia de privilégios, porém fez um documentário que, ainda que problemático nas estratégias de abordagem em particular sobre os personagens e a imagem transposta dos mesmo, não se propõe a trazer a visão definitiva sobre a questão. Coisa que Felistoque e Cukier fazem sem se aperceber ou com total consciência (política).

Um grande momento
As tentativas do comerciante em caracterizar os viciados em crack como uma infestação

[44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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