Crítica | Catálogo

Sempre em Frente

Continuar a perder para eventualmente ganhar

(C'mon C'mon, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Mike Mills
  • Roteiro: Mike Mills
  • Elenco: Joaquin Phoenix, Gaby Hoffmann, Woody Norman, Scoot McNairy, Molly Webster, Jaboukie Young-White, Deborah Strang, Sunni Patterson
  • Duração: 109 minutos

Bar Doce Lar, estreia do mês passado no Amazon Prime Video e forte candidato a uma indicação ao Oscar para Ben Affleck, contava como a presença de um tio pode ser inspiradora para um jovem, até mesmo marcante e inesquecível. Pois Sempre em Frente, estreia nos cinema, não conta isso – ele simplesmente mostra, nos fornece visualmente e narrativamente o que é um tio inspirar um sobrinho pra sempre, e se dedica muito mais a escancarar os motivos e as razões pelo qual essa interconexão pode ser tão forte. Acima de tudo é uma ode a uma familiaridade em tempos onde valores estão sendo perdidos, e não falo exclusivamente de valores familiares, mas do cuidado com o outro, da preocupação com quem se gosta, com a criação de sentimentos que não estão à venda e nem sempre são ideais de quem os cultiva.

Dirigido por Mike Mills, que é o autor por trás de Toda Forma de Amor e Mulheres do Século XX, seu novo filme se encaixa à perfeição na zona de entendimento de sua carreira, que busca sempre esse lugar da reconciliação entre laços tidos como perdidos ou nunca desenvolvidos, de textura humana partindo de um lugar da maturação dos próprios sentimentos e das tessituras criadas a partir do que é intrinsecamente humano. O olhar para essas construções primordialmente familiares e que permitem outras elaborações emocionais, algumas até desenvolvidas a partir do indivíduo, é um dado que Mills desenvolveu ao longo da carreira, entregando aqui em Sempre em Frente o que talvez seja seu filme ao mesmo tempo mais maduro e também assumidamente melancólico em suas rachaduras, ao investigar no cerne da questão as perdas de um homem.

Sempre em Frente
Julieta Cervantes/Diamon

Esse homem é Johnny, um escritor/artista multimídia que passeia pelo país tentando conseguir de jovens respostas que ele mesmo não tem para a própria vida: como será o próprio futuro, o que esperar da humanidade, e afins. Sua busca alheia é um reflexo do que não encontra em si mesmo, e seu rosto é constantemente filmado de maneira borrada, ou multiplicada em espelhos, ou seja, por trás de alguma protetora imagética que cubra seu desassossego. Acabou de ser abandonado de um romance que ele mesmo não via futuro, ainda que também lhe faltasse ânimo para tentar qualquer curva mais audaciosa. Segue procurando o sentido que lhe falta, até perceber que o perdão mútuo da irmã e uma relação inesperada com um sobrinho de 9 anos possa trazer algumas respostas, ou ao menos dúvidas novas.

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Fazendo uma leitura da cinefilia e de parte da crítica com o descrédito à produção, penso que talvez Mills pose demais ou elabore demais seus conceitos no sentido de deixar suas alegorias muito bem amarradas, azeitando nos lugares esperados e transformando sua narrativa em uma busca por completar de maneira mais efetiva as respostas para suas encruzilhadas visuais e narrativas, e a confirmação de certos padrões de linguagem por fim explicitam suas ações e reflexões. A própria escolha em filmar em preto e branco é uma maneira de não permitir uma saída para seu protagonista – ele é refém da falta de cor, e se conseguir parar de sentir pena de si mesmo em relação a uma paixão estagnada, terá a lembrança de um ano inesquecível com um sobrinho que precisa se transformar em nova relação alimentada para sobreviver – ou contar com o poder da imaginação.

Sempre em Frente
Diamond Films

Não há, ainda assim, uma diminuição do caráter imersivo de Sempre em Frente, um filme que passa pelo espectador meio que enfeitiçando o ambiente com uma história onde o emocional nem é um componente excessivo – óbvio, ele existe e está ali, mas a fotografia de Robbie Ryan dá a melancolia, ao passo que também dá uma certa frieza aos passos de sua dupla protagonista, sombreados por um futuro esquizofrênico. O filme acolhe e ao mesmo tempo mantém todos a uma distância saudável de compreensão em relação aos seus sentimentos compartilhados e difundidos. Vide o pequeno Jesse, que não é o tempo todo um pequeno gênio nem o todo o tempo uma criança fragilizada pela ausência trágica de um pai que deixou feridas. Equilibrado é exatamente a palavra, e com isso sem pender para qualquer histeria.

O que paira sobre o mais recente longa de Mike Mills, em paralelo às formidáveis performances de Joaquin Phoenix, Gaby Hoffman e do prodígio Woody Norman, é um senso de esquecimento que paira ao longe, e do medo de ser um passado apagado na vida de alguém. Assim como Dora deseja ser lembrada por Josué em Central do Brasil, a vida de Johnny é alterada a ponto de fazer sentido só se Jesse lembrar da viagem que fizeram, que pra ele será inesquecível. É desse detalhe que Sempre em Frente acaba por falar, quando seus personagens estão nessa linha limítrofe entre o agora e o nunca mais, e querendo ser perenes para alguém. Que tudo na vida é uma coleção de perdas, já lemos isso algumas vezes; o que importa, no fim da equação, é o que fazemos com o que lembramos.

Um grande momento
Correndo para o ônibus

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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