Crítica | Cinema

Uncharted – Fora do Mapa

Produto do mercado

(Uncharted, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: Ruben Fleischer
  • Roteiro: Rafe Judkins, Art Marcum, Matt Holloway, Jon Hanley Rosenberg, Mark D. Walker
  • Elenco: Tom Holland, Mark Wahlberg, Antonio Banderas, Sophia Ali, Tati Gabrielle, Steven Waddington, Pingi Moli, Tiernan Jones, Rudy Pankow
  • Duração: 116 minutos

O mundo do videogame já foi uma inspiração mais direta pro cinema, mas tanta coisa ruim foi feita, com resultados monetários muito aquém do que os estúdios pretendiam, que os planos se arrefeceram, ou ao menos diminuíram em proporção ao que já tivemos. A estreia desse Uncharted: Fora do Mapa tem pé em dois lugares diferentes, mas o principal (ao menos na aparência) é o título da Playstation de enorme sucesso, uma espécie de caça ao tesouro moderna, com a adição de piratas versão 2022. Ao olharmos de perto, vemos que o sucesso de A Lenda do Tesouro Perdido, hit de Nicolas Cage de 20 anos atrás, não foi superado e sua tentativa de reativar aquela ideia está reanimada aqui, com a adição de efeitos especiais para reconstruir cenas inacreditáveis – de verdade, ou no caso, não.

Dirigido pelo Ruben Fleischer dos dois Zumbilândia, o filme também é um descarado veículo para franquia, cuja intenção é fazer um mínimo de três episódios e arrecadar milhões para os envolvidos, incluindo a Sony Pictures, que deve estar salivando por repetir os espetaculares números de 2021. Para isso, mais do que um filme, pensou em um produto, com a cabeça de uma empresa, ou seja, com pouco espaço para uma humanidade perceptível. Se tudo não parece plastificado como são alguns produtos da Disney, é porque há vida comandando o projeto, porque parecem se importar minimamente com o que irá para o espectador. Isso não está em cena o tempo todo, na verdade na maior parte da duração o que vemos é justamente essa tentativa muito clara de ser algo, de maneira forçada. Mas, por baixo dessa carcaça, tem um organismo vivo.

Uncharted - Fora do Mapa
Sony Pictures

Como um bom produto, o filme precisa de âncoras pra vender, e quem melhor pra Sony hoje que Tom Holland? O Homem-Aranha do momento é o protagonista do maior sucesso interplanetário do ano passado, e no momento é a pessoa mais rentável da atualidade. Junte ele a Mark Wahlberg, que nos últimos anos tem caçado carros-robôs, e tá aí a receita para o sucesso. Como toda receita, se você a realiza bem, o gosto é o melhor possível; quando não, você sente a farinha, o ovo, e tudo mais. Uncharted padece dos dois, ora tem lá seu sabor adequado ao que se propõe, ora salta aos olhos sua artificialidade. A presença da dupla de astros agrega uma qualidade rara hoje, que é alcançar a humanidade através do humor, que é uma especialidade do próprio Fleischer.

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Se tem algo no filme que chama atenção na seara estética, é a direção de arte. A cargo de Shepherd Frankel (responsável por Homem-Formiga e sua continuação), toda a construção de cenários, a liberdade conseguida por passear por diferentes partes do mundo, a unidade que agrega à produção sem perder a individualidade de tantos espaços e países distintos, e a forma alegórica com que o filme chega até seu climax e apresenta os cenários que eram antevistos durante toda a produção, chama a atenção justamente porque a Disney, que é referência nesse espaço, é especialista em transformar tudo que toca em parque de diversão. Aqui, vamos de ambientes de profundo requinte a lugares tecnológicos até chegar nos navios do final, tudo parecendo orgânico, e permitindo ao filme um pouco de beleza.

Uncharted - Fora do Mapa
Sony Pictures

No que abarca o elenco, uma atriz chama a atenção e realça ainda mais sua personagem. Tati Gabrielle, cuja personagem se chama Braddock (daí vocês tiram a figura), é a grande vilã da parada, e ela não tá nem aí pra concorrência. É anunciada desde a primeira aparição como alguém que devemos temer, e isso vai se intensificando a cada nova cena da personagem, que por si só já é muito boa. A carga que Gabrielle dá a sua interpretação, que mistura astúcia, perigo e muito carisma (uma tempestade dele) são as armas pelo qual o elenco como um todo segue embevecido pela figura, que impressiona e garante a atriz um lugar de destaque na produção a ponto de quase apagar os protagonistas; que o futuro seja feliz para a atriz, que tinha aparecido em séries populares (Você e The 100) e merece um grande filme pra si.

Uncharted, como já explicitado, trata o público que irá pagar pelo ingresso, como um cliente, e entende que precisa do maior número de representatividade possível na frente da tela para que um grupo abrangente de pessoas seja convencido a se deslocar. Para isso, etnias são misturadas, um Antonio Banderas dá as caras, inúmeros locais paradisíacos estão na pauta do dia – como se fosse um imenso cardápio, as opções são variadas. E aí, independente de duas cenas espetaculares serem realizadas com cargas de adrenalina muito altas, que elevam o patamar final, a lenta primeira parte repleta de explicações desnecessárias e esse campo de perceptíveis tópicos a serem cumpridos, deixam a produção com uma cara burocrática, acima de tudo.

Um grande momento
Queda livre

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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