Crítica | Catálogo

A Jaula

Claustrofobia política

(A Jaula, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: João Wainer
  • Roteiro: João Cândido Zacharias
  • Elenco: Chay Suede, Alexandre Nero, Mariana Lima
  • Duração: 80 minutos

Para os claustrofóbicos, um alerta: A Jaula não é para os fracos. 80% passado no interior de um carro, o longa de estreia na ficção do diretor João Wainer sugere tensão ininterrupta e consegue produzir desconforto e insegurança em quem embarcar em sua atmosfera exasperante. O que aparenta começar como um thriller/jogo social, acaba por descascar essa camada sem perdê-la, mas também acrescentar à receita esse lugar inesperado da inquietação física, apertando os botões da ansiedade sempre que possível. O filme é a primeira contribuição cinematográfica da Star Distributions, que vai centralizar nos cinemas os títulos que a antiga 20th Century Fox tinha acertado entre longas brasileiros antes de ser adquirida pela Disney. É um belo pontapé inicial, que pode servir como cartão de visitas também de viés pop.

Baseado num longa original argentino (4×4, de Mariano Cohn), o filme reestrutura essa ideia do remake dentro do que o cinema tem por hábito realizar, porque é uma produção que não teve repercussão, não foi premiada nem uma carreira de sucesso por festivais. Logo, é um título que nos chega fresco, quando o cinema costuma nos enfiar goela abaixo refeituras de títulos consagrados – ou seja, aqui o remake cabe. O universo do longa ambientado em espaço diminuto não é necessariamente algo estranho (Por um Fio, Culpa – que até gerou uma releitura, da categoria do dispensável), mas aqui o personagem além de não ser um mocinho, também se vê em situação adversa pela ausência de espaço justamente, sofrendo os contratempos de estar trancado, sem ar, sem comida e sem bebida durante um tempo indeterminado.

A Jaula
Divulgação

No centro da narrativa, durante a maior parte do tempo sozinho e chamando toda o roteiro para seu rosto e corpo, que precisam ser retorcidos para gerar todas as camadas de incômodo, Chay Suede já não representa mais surpresa. Premiado na TV e começando a ser bastante requisitado no cinema, o jovem ator corta um dobrado em cena, na necessidade de representar com fidelidade todas as mazelas que seu personagem encara em cena – calor extremo, frio desmedido, fome, sede, a dor de um tiro descuidado, a angústia de não saber qual seu futuro e de quem depender para sobreviver, em um estado de mutação interessante para um ator, que se transforma em cada novo momento. Até restar apenas um corpo no chão, Suede passa inclusive por um belo momento de desprendimento. Ponto dele e do filme.

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O que pega na produção é sua vertente política que, de tão enviesada, perde o sentido em alguns momentos. Ainda que seja uma proposta interessante de enquadrar a tal polarização quanto aos “homens de bem”, o filme vai perdendo a sutileza nessa questão, embora nunca pinte as situações de maneira positiva – não heróis em A Jaula, ainda que existam muitos vilões em potencial. Mas quem construiu esses cidadãos, foi a própria sociedade, foi a política, foi a divisão de classes…? O longa não se pretende julgar ou debater o estado das coisas, ele só prenuncia que nada está bom, para quem está por cima ou para quem está por baixo. Ainda que possa não querer condenar nenhum personagem, a forma como a discrição vai sd despedindo do filme mostra uma forma de pensar.

A Jaula
Divulgação

É o personagem de Alexandre Nero quem promove esse comentário nada sutil a respeito de lugar de fala, fake news, família tradicional brasileira, a classe média bem remunerada x a classe operária que só vai ao inferno… e muitas outras manchetes do telejornal – até o aparecimento de um vidro de álcool em gel é destacado. A despeito do talento do ator, que está em cena o tempo todo (o talento, não o ator), essa curva que o roteiro de A Jaula dá possibilita uma discussão que é tranquilamente apossada pela ausência de argumentos para apontar os dedos para os lados dos de a validou mais uma vez, ou para apontar de novo uma mesma fatia da sociedade como responsável por todos os seus problemas, sem relativizar as questões que ele mesmo propõe.

O suspense que é oferecido por Wainer é bem dosado, a trilha sonora tem algum grau de intrusão que acaba sendo bem-vinda para esse tipo de projeto, e sua esquematização é bem sucedida, tem ritmo bem dosado em um roteiro muito funcional. O que desanda A Jaula é justamente essa manutenção política que nem precisaria existir, mas já que existe, deveria estar em equilíbrio com o formato, todo bem produzido. Da forma como se apresenta na narrativa, o filme pode acabar a um pé de se tornar também seu próprio inimigo, precisando o espectador relativizar o que o filme bem sempre faz. E aí é pedir demais do espectador, que só queria não ser acessado para resolver questões de ordem política.

Um grande momento
A pré batida

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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