Crítica | Festival

Shiva Baby

Vontade de sumir

(Shiva Baby, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Emma Seligman
  • Roteiro: Emma Seligman
  • Elenco: Rachel Sennott, Molly Gordon, Polly Draper, Danny Deferrari, Fred Melamed, Dianna Agron, Jackie Hoffman, Sondra James, Deborah Offner, Vivien Landau, Glynis Bell, Cilda Shaur, Ariel Eliaz
  • Duração: 77 minutos

Danielle tem um sugar daddy. Se diverte, transa, ganha coisas caras, inventa a vida que quer inventar e vai embora. Longe desta vida, Danielle esta perto de se formar. Não quer pensar em planos para pós graduação, tem interesse em pesquisa de gênero, inventa a origem do dinheiro que quer inventar e segue em frente. Entre as duas realidades, há uma agenda a ser cumprida e ela segue para um shivá familiar, onde estão sua mãe e seu pai. Ainda fora da casa, dá-se início à espiral frenética que toma conta de Shiva Baby.

Dirigido por Emma Seligman, o filme fala de um milhão de coisas e conceitos numa velocidade alucinante. A diretora brinca com lentes e movimentos para deixar a experiência ainda mais sufocante. Sempre grudado à Danielle, o espectador vai se perdendo junto com a jovem em meio a situações que não cansam de se tornar ainda mais esdrúxulas, assim como as figuras que vão aparecendo para reforçar sentimentos e sensações.

Shiva Baby

Julgamentos e padrões falam muito alto naquele ambiente onde a protagonista está deslocada desde o primeiro momento em que aparece em tela. Embora o espaço seja sempre tomado de gente, e a diretora de fotografia Maria Rusche faz questão de destacar isso causando a sensação de opressão com o encolhimento espacial, Danielle está sempre contida, como se todos os seus movimentos fossem congelados por algo que não é visível, mas a impede.

O desconforto vai aumentando à medida que o tempo passa e se acentua toda vez que há alguma contraposição com essa opressão de Danielle e a luminosidade de Maya, numa das poucas – ou talvez na única – relações mal exploradas pelo roteiro, também assinado pela diretora. Mas em Shiva Baby nunca é uma coisa só. O sugar daddy lá do começo chega no shivá de repente e é um amigo antigo dos pais de Danielle. E a confusão vai aumentando. O constrangimento parece que nunca vai ter fim.

Perguntas e comentários desagradáveis se amontoam com sarcasmos e mentiras, pedidos de empregos e lembranças constrangedoras com momentos religiosos e choros de bebê. O banho de café. O bracelete caríssimo. O telefone desaparecido. Não há nenhum evento que não cause mais um novo desespero e não deixe o espectador tão angustiado quanto Danielle para que tudo aquilo termine o mais rápido possível.

Entre os destaques, o roteiro ágil e muito preciso no timing e a atuação de Rachel Sennott. Shiva Baby é o segundo longa atriz (o primeiro, Tahara, foi lançado também em 2020) e impressiona como ela segura bem o papel. Um filme que te pega pela tensão e pelo constrangimento. Uma comédia de manipulação que fala muito bem dessa coisa da necessidade de enquadrar para aceitar, do limitar para controlar. Além disso, é um belo exercício de execução cinematográfica. Textualmente, tem um pezinho no teatro, mas visualmente, foi muito bem transposto.

Um grande momento
O seu bracelete…

[35º Festival de Cine de Mar del Plata]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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