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Souvenir

Além do maniqueísmo

(Souvenir (2021), MEX, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Armond Cohen
  • Roteiro: Ricardo Aguado-Fentanes
  • Elenco: Paulina Gaitan, Marco Pérez, Yuriria del Valle, Flavio Medina, Roberto Sosa, Silvia Mariscal, Fernando Becerril, Montserrat Marañon, Andrew Leland Rogers
  • Duração: 107 minutos

Violar o corpo e a história de uma mulher, destruir seus direitos e seu livre arbítrio, sobrepujar os sonhos e desejos de um ser humano para realizar os próprios. É complexo descrever onde começam e onde terminam os erros de cada um dos personagens de Souvenir, estreia recente do Prime Video que discute mais uma forma de violentar o feminino (como temos visto em A Bela e os Cães, A Vigilante, De Volta para Casa, e algumas outras produções recentes), aqui emoldurando a violência em empatia, que passo a passo revela sua face egoísta. Ainda que a própria protagonista do longa seja uma espécie de anti-heroína, a produção a cerca de inúmeras pessoas que se aproveitam de suas fraquezas para saqueá-la emocionalmente. 

Dirigido pelo estreante Armond Cohen e escrito por Ricardo Aguado-Fentanes, a produção mexicana não trata necessariamente essa questão por uma ótica femininsta (e ainda bem que não o faz, já que dois homens são responsáveis pela mesma), mas sim refletem sobre essa exploração de maneira distanciada e melodramática, quase como testemunha dos eventos. Embora encontre uma linguagem cinematográfica eficiente, o encadeamento da estrutura dramática se dá através de um expediente comum em telenovelas – um arco coral que une quatro personagens em um novelo de acontecimentos, casualidades, paixões e mistérios. 

Souvenir (2019), de Armond Cohen

A direção de Cohen encontra espaço para encampar suas discussões através das imagens que produz; logo nos primeiros 10 minutos, a protagonista usa uma camisa com a clássica imagem da capa do disco “Nevermind” do Nirvana – o bebê nadando na direção do dólar preso em um anzol – e esse plano sozinho nos captura para as inter relações da protagonista com seus parceiros narrativos, calcada em uma espiral de provocações onde o interesse de cada indivíduo serve como isca para os outros. Esteticamente, há uma ordem para provocações visuais eficientes, exemplificados pelo jogo cênico entre Isabel e Bruno, mesmo quando não existe intercurso sexual, a câmera sempre explora essa interação com propriedade e significado, demarcando o poder que é cambiado entre eles, e as fragilidades de ambos, bem como a breve felicidade que surge do casal improvável. 

Apesar disso, o tratamento dado ao encadeamento de personagens e ideias é o mesmo dado a uma produção global de carreira, em nível industrial. Sem desmerecer o potencial apresentado em obras como Barriga de Aluguel, Souvenir não encampa uma discussão que alicerce seu roteiro para além do melodrama básico, com plots dignos dos ganchos de finais de capítulos. Aliado a isso, temos um personagem cujas motivações nunca é muito bem definida; Bruno sente falta da esposa, mas nunca quis ser pai, mas tem um caso com uma ex-aluna, mas escreveu um livro e nunca um segundo, mas adquire inspiração para enfim prosseguir, mas se apaixona… ou não? Nada que vem do personagem é minimamente orgânico, parece tudo muito jogado no roteiro para que o mesmo avance, não importa se tem ou não credibilidade. 

O arco dramático de Isabel, a protagonista vivida por Paulina Garcia (de Sem Identidade), é muito mais crível, mesmo em meio ao redemoinho que vive e eventualmente é provocadora. Há uma base para seu descontrole, sua turbulência e indecisão constante, é uma personagem desenhada com essa margem de erro e defendida com vigor por sua intérprete, que falta a construção de seu parceiro de cena. Ainda que suas bordas sejam igualmente melodramáticas, com desdobramentos quase afetados, há um carimbo nesse registro, que vai do relevo inicial à entrega da atriz. O casal que forma o vértice final da trama também conta com ótimo desenvolvimento, mas no geral não se parece muito diferente ao padrão televisivo de montagem de roteiro. 

Souvenir parece um bom cartão de visitas para Cohen, um sinal de tentativa de elaboração visual no meio de uma chuva de clichês, o que acaba também por evidenciar as deficiências do trabalho de Aguado-Fentanes, muito engessado na estrutura base do folhetim, que empalidece suas possíveis qualidades. Graças ao esforço do elenco e do olhar enviesado que a direção elabora suas marcações, a produção mexicana sai elevada e fora do lugar onde o roteiro o aprisiona, ao julgar seus personagens e condenar suas ações. Cohen percebe que é possível falar para além do maniqueísmo e do tradicional chavão novelesco. 

Um grande momento
O gravador 

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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