Crítica | VoDDestaque

Fatale

Atração sinistra entre estranhos fatais em um pacto

(Fatale, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Deon Taylor
  • Roteiro: David Loughery
  • Elenco: Hilary Swank, Michael Ealy, Mike Colter, Damaris Lewis, Tyrin Turner, Danny Pino, Geoffrey Owens, David Hoflin, Sam Daly
  • Duração: 102 minutos

Sim, você já viu Fatale pelo menos umas cinco dúzias de vezes, mas esse é daquele tipo irresistível de filme para quem não apenas foi criado, como sente falta do mais medíocre cinema produzido nos anos 1990, que foram gerados por filmes infinitamente superiores a eles, mesmo nas próprias cercanias. O thriller descartável voltou à moda, e recentemente estreou nos cinemas e nos streamings os exemplos mais recentes desse revival, respectivamente Aqueles que me Desejam a Morte e A Mulher na Janela. Aqui, mais uma vez o gosto é de café requentado de fundo de máquina, a não ser que o espectador seja realmente aficcionado por produtos que a Globo adorava exibir no sábado à noite, ou por dois filmes em particular. 

Tudo começou bem antes, lá pelos idos de 1951. O mestre Hitchcock mostrou o encontro entre dois “estranhos em um trem” em Pacto Sinistro, o filme elementar sobre acordos homicidas. 36 anos depois, Adrian Lyne se apropriou do cinema de gênero para colocar a infidelidade na berlinda no sucesso Atração Fatal; o roteiro de David Loughery é o bebê que nasceu desse cruzamento. Ele não tem escrito outra coisa nos últimos anos que não uma variação desse “cinema” – O Vizinho e Obsessiva são exatamente o mesmo filme. Em Hóspede Indesejado, ele se encontrou com o diretor Deon Taylor e ambos reconheceram-se em seus ”nichos”. 

Fatale (2020)

Em cartaz no VoD, Fatale, apesar de tudo, entretém absurdamente ainda que saibamos cada virada da narrativa, que saberemos a ordem exata de cada novo encontro dos personagens, que até mesmo o posicionamento das câmeras seja conhecido antecipadamente. O requinte que foi jogado em cada locação, cenário, carro e figurino para o filme (já repararam que nessas produções, as pessoas não são apenas ricas mas podres de ricas, e não apenas charmosas mas tem todo o charme do mundo?), não foi assimilado por nenhuma linha do roteiro nem em qualquer plano conseguido por Taylor; é material assumidamente descartável e sem qualquer rastro de personalidade.

A única coisa que essa narrativa ameaça fazer é borrar os limites entre os personagens e suas morais muito particulares. Somos apresentados a cada um em cena, e o filme não tem medo de posteriormente tirar as questões dos conceitos objetivos para os subjetivos; tudo e todos estão em zona cinza. Essa ambiguidade providencial tira o filme do eixo comum momentaneamente, mas não há discussão mesmo estética sobre esses seres marginalizados. Há apenas charme e beleza, nos móveis, no sexo, nas roupas, na luz empregada em todas as cenas, sejam elas íntimas, violentas ou dramáticas, sabemos que esse tipo de produção deve ser inclusive muito agradável de se assistir, plasticamente irrepreensível, ainda que vazio. 

Apesar de branco, Loughery geralmente escreve esses thrillers de protagonismo negro, e em Fatale não é diferente. Ainda que a oscarizada Hilary Swank (nem vamos entrar na enésima elaboração sobre como a carreira da responsável pelas seminais interpretações em Meninos não Choram e Menina de Ouro chegou até aqui) esteja no cerne da narrativa, todo o resto do elenco é negro, quase todos ricos e muito bem sucedidos, ocupando espaços que a indústria geralmente não os coloca. A subida e a posterior queda de uma fatia periférica, que poderia gerar uma discussão das mais instigantes, é sugerida e abortada – ao filme só interessa o que você já está esperando, para que ele faça de novo e você receba de novo o mesmo “pão e circo”. 

Fatale (2020)

Ainda que Hilary esteja muito bem em papel para o qual também ela não é associada geralmente – a mulher fatal – Fatale é um produto repleto de facilidades e avesso a qualquer sutileza. O filme basicamente repete os encontros entre Michael Douglas e Glenn Close no hoje clássico filme de Lyne, chegando até a reproduzir cenários que se assemelham muito ao filme de 1987. O resto do elenco não tem as chances dramáticas que ela tem, apenas servem ao roteiro como marionetes da mente de um projeto sem imaginação que presume conhecer o gosto do público, ou ao menos de uma certa faixa. 

Dito isso tudo, existe espaço para se divertir assistindo a Fatale. Se levarmos em consideração que todos também parecem estar reproduzindo quase cena a cena, propósito a propósito, um jogo estabelecido e muito antiquado, cabe ao espectador escolher se aborrecer com as cartas marcadas ou embarcar na brincadeira. A cara de pau de quem está do outro lado da câmera tem que ser respondida com igual cara de pau, vamos em frente.

Um grande momento
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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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