Crítica | Cinema

Eu Estava em Casa, Mas…

Mais coisas entre o céu e a terra

(Ich war zuhause, aber, ALE, SRB, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Angela Schanelec
  • Roteiro: Angela Schanelec
  • Elenco: Maren Eggert, Jakob Lassalle, Franz Rogowski, Alan Williams, Devid Striesow, Lilith Stangenberg
  • Duração: 105 minutos

Com os elementos que Angela Schanelec entrega de pronto em Eu Estava em Casa, Mas…, é fácil considerar que tudo o que está sendo visto ronda, de alguma maneira, a traição. Indo das figuras clássicas de Esopo às declamações da mais complexa tragédia shakespeariana, e vagando pelas explicações que o filme não faz questão de dar, a história que surge na mente para tentar justificar o aparecimento de um jovem sujo no meio nada é quase como um tentativa de nos levar a um lugar de segurança, onde tenhamos controle sobre signos e significados. Porque é fácil ficar impressionado com as imagens de Ivan Markovic ou se refugiar nos tempos mortos a la Ozu, referência que está até no nome do filme, mas o desacerto da incompreensão, bem manipulado, perturba.

Schanelec quer provocar esse desacerto, quer que se olhe para outros pontos, não está interessada no óbvio. Se as figuras escolhidas por ela exalam traição por significados pré-determinados, o que mais elas trazem? O que de humano circunda essa ação? Esses são os sentimentos que a diretora quer encontrar. Seu Hamlet não tem encontros fantasmagóricos e nem simula uma loucura, mas silenciosamente se ressente das mesmas dores: luto, ciúme, medo. Seja ele ou não seja, o filme quer mesmo é descobrir a influência daquela pessoa, ou daquele ato da pessoa, na vida dos que os circundam, e olha para sua Gertrudes, aqui chamada de Astrid, com uma atenção especial.

Eu Estava em Casa, Mas...

Tudo no filme conduz ao olhar do outro lado. Literalmente. Se se encena os atos da peça na escola, olha-se para as crianças que acompanham o desenvolver da cena; se o casal passeia por um museu, observa-os observando. O espectador é sempre aquele que especula sobre a interpretação de algo, como quando acompanha divagação sobre atuação. Nesse jogo de deslocamento inusual, a análise rápida e fácil vai perdendo o sentido e o jogo de Eu Estava em Casa, Mas… se estabelece. Pensando em outros lados, mais do que em vingança, o filme está interessado no ato de confiar.

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Astrid, enquanto mãe, é aquela que transmite confiança e também a que confia. Ao mesmo tempo é aquela que involuntariamente provoca a ação principal e sofre tantas outras menores pelo filme. A personagem se quebra por não mais saber como analisar aquilo que por tanto tempo era tão claro, o que sempre entendeu sem as palavras que agora não existem por opção. Mesmo que ainda exista o mesmo de antes, em momentos e ações, algo se perdeu naquele tempo de ausência, e resta a culpa — traduzida graficamente em uma cena incrível em um museu — e, de certa forma, a solidão de todos os seres humanos.

Há também, obviamente, o julgamento: da loucura temporária de Hamlet após o luto, do seguir em frente de Gestrudes após sua viuvez. Eu Estava em Casa, Mas… é uma metáfora da relação mãe-filho e do rompimento com o laço materno ao passar à fase adulta, assim como a peça que o inspira. Metáfora da relação familiar que se contamina pela relação social e a sociedade que surge como a verdadeira vilã.

São as reuniões na escola que determinam o caráter e cenas deslocadas que transferem a outras personagens femininas as condutas esperadas da protagonista. Marcas de uma sociedade que, mesmo com o passar do tempo e guardadas as devidas proporções, se comporta como aquela retratada pelo bardo no século 16. A sociedade que assume o papel de um outro personagem não mostrado no filme, mas presente em significado. E Schanelec interrompe a narrativa para nos levar novamente ao início do filme e voltar a Esopo. Fechando sua história, ela mostra que sem a sociedade, o leão, não há precipício e, assim, mãe e filho, ou burro e raposa, Astrid e Phillip, Hamlet e Gestrud, ainda que com sua diferenças, dormem felizes, em paz e confiança plena.

Um grande momento
Olhando para mães que olham para a Mater Dolorosa

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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