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Tato

Olhos sem rosto

(Tato, BRA, 2023)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Pedro Carvalho
  • Roteiro: Welington Matos, Pedro Carvalho
  • Elenco: Welington Matos, Gabriel Albuquerque, Aline Silveira, Lenine Martins, João Asterio de Souza, Maicon Antônio
  • Duração: 20 minutos

Assistido dentro da última Mostra Tiradentes, Tato acabou se desenhando dentro de um mesmo campo coletivo de observação, uma aproximação da juventude já em rota de colisão com as expectativas projetadas pela sociedade, mas principalmente por si. Junto a Cassino e Sofia Foi, o filme de Pedro Carvalho se interessa pela desesperança que move o país nos anos que seguiram o golpe contra a presidente Dilma Rousseff, a vitória de um candidato de extrema direita para o principal cargo da nação, uma pandemia global, e a forma com que fatias da  juventude já encara a troca de bastão etária. As reflexões que o filme encampa aqui não preveem o encontro com as respostas necessárias, mas uma espécie de prostração diante do muro. 

O muro ao qual me refiro não é uma parede concreta, mas a impossibilidade do sonho. Algo que talvez só seja de fato oferecido a outras esferas, a outro campo de indivíduos. Como no filme de Gianluca Cozza, aqui temos uma estrutura que foi paralisada pela marginalidade que a cerca. Welington percebe que os moldes que determinaram seu passado podem ser preponderantes para definir seu futuro, ou pelo menos estagnar qualquer promessa. Não lhe falta empreendedorismo pessoal, mas a quantidade do que faz não determina que o rumo da fuga será encurtado. Carvalho mostra em Tato uma sensibilidade muito aguçada para perceber que destino é uma palavra cunhada para quem pode se dar ao luxo de ter. 

Os olhos sem face da música de Billy Idol que invade a narrativa de uma maneira tão forte que nos perguntamos se não estava ali, naquela letra, a inspiração do autor para a base de seu roteiro, que como o melhor cinema brasileiro hoje, é muito embrenhado na realidade de seus personagens. E o que são personagens? O que é a textura de Tato, se não uma isca para uma ficção que se disfarça de verdade – e vice versa? Através do sentimento de perda que perpassa toda a canção, vemos Welington traduzir em corpo o que está sendo cantado. O desperdício de tempo, a falta de esperança, e o isolamento auto imposto; o diálogo é essencial para se perceber aquele homem em uma encruzilhada. 

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Carvalho filma Wellington, ator e personagem, ator/personagem, e vai além da empatia ao compreender aquele momento de transição. Existe a tormenta pelo que não há mais, por quem não está mais, mas também existe a inquietação que movimenta o presente. Tato está na companhia luxuosa dos grandes filmes brasileiros sobre sonho e trabalho, porque seu diretor lê à perfeição cada suspiro que emana desse homem que pretende acertar daqui pra frente. O martelo não o deixa esquecer que pretérito nenhum é inteiramente apagado, e o filme mostra que existe uma dualidade entre o trabalho braçal e o artístico, até encontrar certa beleza narrativa nesse quadro partido; a obrigação e o prazer, a dureza e a liberdade, o sonho e a concretude. E se todos esses estados ambíguos não se dividissem, e sim fossem sempre dois lados indissociáveis de uma mesma estrutura?

Através desse chamado para a compreensão, Welington talvez, em breve, perceba que o ser é único por abrigar tantas contradições. Somos todos construções do que já vivemos e do que ainda iremos viver, aceitando o desconhecido amanhã da mesma forma que o abalo do ontem. Ao ser exposto a um horizonte do qual não enxerga tantas promessas assim, o protagonista ainda pode perceber, a qualquer momento, que ‘Eyes without a face’ termina clamando por um novo olhar para o que passou, porque o perdão é necessário. O carro se afasta mas ele a câmera não foge dele, a câmera é ele; não existe caminho sem quem o percorra. Tato, nas entrelinhas, pede que esse homem ressurja sem ajuda, porque os sinais estão sendo dados; o futuro está além de algo tão chapado quanto o horizonte.

Um grande momento

Welington se machuca

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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